A diversidade da população de Diamantina na primeira metade do século 20 está literalmente retratada na exposição “Chichico Alkmim, Fotógrafo”, aberta no último fim de semana e que ficará até 23 de fevereiro na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes, apresentando o trabalho do fotógrafo mineiro.

Para o curador da mostra, Eucanaã Ferraz, os retratos profissionais encomendados pelos moradores, sem ambição artística, ganham valor de arte enquanto registro de pessoas e costumes daquela época, englobando diferentes classes sociais e etnias que coabitavam uma Diamantina já vivendo a decadência do garimpo de diamantes. “É uma exposição de pessoas. O que chama a atenção na fotografia do Chichico é o quanto ele consegue trazer para a superfície do papel a alma dessas pessoas, o que faz dessa exposição uma coisa tão emocionante”. 

Eucanaã também pontua que, a partir da tradição das fotos tiradas em ateliê, Chichico conseguiu reproduzir a técnica em fotografias externas, mantendo os mesmos cuidados e domínio da luz e enquadramento em ambientes naturais.

CHICHICO ALKMIM

Curador Eucanaã Ferraz junto a biombos com fotografados por Chichico Alkmim em tamanho real

Fotografados

Natural de Bocaiúva, o fotógrafo se mudou para Diamantina em 1910 e por lá ficou, gerando o que o curador classifica como espécie de inventário do país. “Diferentemente de outros fotógrafos viajantes, ficou em Diamantina e basicamente fotografou os vizinhos, o que mostra como um lugar tão pequeno conseguiu reunir uma gama de personagens tão variados”, ressalta Eucanaã Ferraz, que escolheu tais fotos pela beleza e pela variedade de feições, cabelos e peles representativos da riqueza étnica brasileira.

Quem passa pela avenida Afonso Pena, em frente ao Palácio das Artes, já tem uma mostra do acervo exposto na galeria. São imagens de mais de mais de 2m de altura, ampliadas a partir dos negativos, com o objetivo de simular a presença dos fotografados no ambiente. “Há uma frontalidade com as pessoas que estão diante do fotógrafo e que atravessam a máquina, ultrapassam tempo e espaço e estão aqui”, crê Eucanaã.

“Esse primeiro momento é uma espécie de praça, onde a ideia é que nessa escala a gente tenha relação de igual para igual com os fotografados, para entender quem são essas pessoas, como elas se vestem, a textura das suas roupas, das suas peles, dos seus cabelos, dos seus olhares”. As imagens dos negativos também são exibidas em sua integralidade em outros momentos, revelando, inclusive, funcionários de fundo e o ateliê para além do cenário que o fotógrafo montava a partir de panos pintados para parecerem um ambiente natural.

Parceria

Adquirido há quatro anos pelo Instituto Moreira Salles (IMS), o acervo de mais de cinco mil negativos de Chichico Alkmim foi filtrado nas 251 imagens da mostra. Além da sede, no Rio de Janeiro, a exposição “Chichico Alkmim, Fotógrafo” também passou pelos espaços do IMS em São Paulo e em Poços de Caldas e, segundo os organizadores, nessa cidades alguns dos anônimos retratados foram reconhecidos pelos visitantes, algo que eles esperam que ocorra em maior escala ainda durante os três meses em que ficará disponível para o público belo-horizontino.

“Temos imensa honra em receber o acervo desse importante artista mineiro e disponibilizá-lo para o público que, certamente, irá se identificar com a história do Chichico e, principalmente, com a forma como Minas Gerais é retratada em suas imagens”, destaca Eliane Parreiras, presidente da Fundação Clóvis Salgado (FCS).

Ela destacou que a exposição também marca a renovação da parceria entre FCS e IMS, que havia começado em 2010, quando o IMS cedeu à FCS a gestão do atual espaço onde funciona a Casa da Fotografia de Minas Gerais (CâmeraSete) na Praça Sete, e terminaria em janeiro do ano que vem. A parceria ainda se estenderá para outras áreas.

“Vamos renovar a concessão da CâmeraSete por mais dez anos, com o objetivo de continuarmos atuando conjuntamente. Mas a nossa parceria não se restringirá somente à gestão do prédio da Praça Sete. Outros espaços nossos receberão oficinas, debates e eventos editorais, além da coprodução de exposições”, anunciou Eliane Parreiras.

 

Serviço
Exposição "Chichico Alkmim, o Fotógrafo"
Até 23 de fevereiro de 2020 (terça a sábado, das 9h30 às 21h; domingos, das 17h às 21h)
Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes (Afonso Pena, 1.537 – Centro) 
Entrada gratuita
(Os visitantes da mostra terão acesso a um áudio-guia, que poderá ser acessado tanto em aparelhos distribuídos no local quanto pelo próprio celular)