Ao escolher o nome “Cantos Sagrados” para o disco e o DVD em que homenageia Clara Nunes, Fabiana Cozza não pensou apenas no conteúdo religioso que a cantora mineira emprestava a boa parte de seu repertório, fazendo referência especial à umbanda e ao candomblé. O conceito vai além. “Quando estava fazendo uma pesquisa de repertório, compreendi que a Clara encarava a música como um ofício sagrado, que é o mesmo compromisso que tenho com o meu trabalho. Ouvi muitas pessoas dizerem que ela transcendia no palco, uma transcendência que é o religamento com a ideia do sagrado”, explica.

Esse olhar de Fabiana Cozza sobre a artista – morta de forma trágica em 1983, aos 39 anos, após uma cirurgia – ficará mais claro no show de lançamento do DVD “Cantos Sagrados”, neste domingo, 6, no Cine Theatro Brasil. No repertório do trabalho, registrado em um show realizado em agosto do ano passado, canções inesquecíveis, como “O Mar Serenou”, “Conto de Areia” “Feira de Mangaio” e “Senhora das Candeias”, além de outras menos conhecidas, pinçadas a partir de um trabalho de pesquisa.

“Desde pequena, sempre ouvi músicas de Clara Nunes, sempre a tive como referência. Nas primeiras vezes em que a ouvi, me chamavam a atenção a alegria de sua voz e a beleza das capas dos discos, em que ela estava sempre com seus balangandãs”, lembra Fabiana.

Quem conhece o trabalho da cantora paulista percebe bem a influência de Clara Nunes. Os pontos em comum vão além das vozes privilegiadas. “Cantamos um samba que privilegia a letra e a melodia, não só o ritmo. Tenho uma preocupação com a prosódia e o teatro me ajudou muito nesse sentido. Ter um treinamento de atriz me fez ter um olhar diferente sobre a música”, diz a artista, que foi vencedora da categoria Melhor Cantora de Samba no Prêmio da Música Brasileira de 2012.

DVD conta com documentário

O DVD “Cantos Sagrados” não traz apenas um registro sobre um show de homenagem, mas também imagens e depoimentos, em especial de Dona Mariquita, ou Dindinha, irmã mais velha de Clara Nunes. A senhora de 83 anos, responsável por um belo acervo pessoal da cantora em Caetanópolis, na região Central de Minas, prometeu vir a Belo Horizonte neste fim de semana para prestigiar o show de Fabiana Cozza, de quem se tornou uma grande amiga.

Desde que nasceu a amizade entre artista e entrevistada, Fabiana vem desenvolvendo projetos para arrecadação de fundos para a manutenção da creche que Dona Mariquita mantém em Caetanópolis, seguindo um sonho de Clara Nunes. A bilheteria de um de seus shows chegou a ser totalmente revertida para a iniciativa filantrópica.

“Ano passado, ela ficou bem cansada de falar com a imprensa, e triste ao ver que quase ninguém falou da creche, que era um grande sonho da irmã. Ela mantém a duras penas essa creche com mais de 30 crianças”, diz.

Produzido por Fabiana – que já trabalhou como jornalista – e pela Agô Produções, o documentário presente no DVD conta com depoimentos de Elza Soares, Wilson Moreira, Deli Monteiro, Adelzon Alves (primeiro produtor de Clara Nunes), entre outros. Um trabalho que mostra como a cantora mineira era encantadora em sua vida pessoal e como quebrou padrões na indústria da música.
 
Sem imitar

O grande desafio de Fabiana, na verdade, foi em relação ao palco. Como ela poderia fazer uma homenagem à Clara sem imitá-la? Para isso, ela contou com a direção artística da atriz Olívia Araújo. “Venho desenvolvendo um trabalho com diretores de teatro desde o início da carreira. Com esse exercício, venho a cada dia desenhando mais uma assinatura, tendo ainda mais confiança em uma assinatura que eu já tinha”.

O roteiro do espetáculo também foi importante para que Fabiana mostrasse a sua marca na homenagem. “Chegamos ao conceito de trabalhar os lugares pelos quais Clara viajou com sua música: o Brasil do sagrado, o Brasil da festa, o Brasil dos tambores, do desamor e da dor”, explica Fabiana.

Além de viajar pelo país com esse show, a artista passa a definir melhor sua carreira internacional. Ela já se apresentou em países como Israel, Alemanha, França, Estados Unidos e Espanha, e terá disco específico para o exterior. “Tenho dois projetos que serão lançados simultaneamente no ano que vem, um para o Brasil e outro para o exterior. Um produzido pelo Swami Jr e outro pelo Paulão 7 Cordas”.