“Falo que meu pai é meu pai duas vezes: pelo sangue e pelo verso”, diz o escritor Fabrício Carpinejar. É, inclusive, junto dele, o também escritor Carlos Nejar, que o autor gaúcho sobe ao palco no espetáculo “Poesia de Pai Para Filho – Encontro de Duas Gerações”, que tem apresentação única hoje no Sesc Palladium.

Na montagem, a produção literária de pai e filho se mistura. “Quando idealizei e escrevi o espetáculo, quis fazer uma costura com as minhas histórias e com os poemas do meu pai. É a história dentro do poema e o poema dentro da história, como se fosse um carrossel emocional, comigo girando em torno dele”, explica o escritor.

Ele descreve a montagem como uma espécie de tribunal do amor. “A ambientação é toda feita dessa forma. A peça começa com o meu questionamento: será que eu conheço meu pai?”, conta. O gatilho para a pergunta surge de uma ida ao médico e da necessidade do filho de responder a um prontuário. “A partir disso eu vejo o quanto ele é um íntimo estranho, mas vou percebendo ao longo do espetáculo o quanto sou parecido com ele”, afirma.

Dentre as semelhanças, entram em cena curiosidades e lembranças da infância, anedotas e a própria história da relação entre pai e filho. “Temos a mesma mania, odiamos sermos a segunda pessoa a ler o jornal. Não gostamos dele amassado, já usado. Já fizemos uma gincana por isso. Ele costumava acordar às seis da manhã para ler o jornal, comecei a acordar quinze minutos antes, aí ele começou a acordar às 5h30. Até que um dia ficamos os dois juntos, acordados de madrugada esperando o jornal chegar”, rememora o autor.

Permeado pela cumplicidade e o amor entre os dois, Carpinejar acredita que não há como não se emocionar com a montagem. “São dois poetas conversando, mas também é, por um momento, o esforço do pai e de um filho para se compreenderem”, define. Sobre a experiência de dividir o espetáculo com o pai, ele diz que era algo inimaginável. “Nunca pensei que ele estaria no palco comigo aos 79 anos. Sua idade é de uma grandeza exemplar”, elogia.
 

Homenagens

Para além dos laços familiares, há ainda um tributo aos 60 anos de carreira de Nejar. “O espetáculo é, primeiro, uma homenagem à carreira literária do meu pai. Ele é contemporâneo de (Carlos) Drummond, de (Mário) Quintana, Ariano Suassuna. Dos grandes da literatura, ele é um sobrevivente. É como o último dos moicanos, então quis transpor ao palco uma dramaturgia que abordasse isso”, conta ele, que celebra também os 20 anos de seu próprio percurso na literatura. “Um terço da história do meu pai, né? Acho que revisitar esse trabalho e estar com ele é engrandecer essa trajetória”, diz.

Serviço: “Poesia de Pai Para Filho – Encontro de Duas Gerações”, com Fabrício Carpinejar e Carlos Nejar, hoje, às 20h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Av. Augusto de Lima, 420 – Centro). Entrada gratuita