Uma das atrações da mais recente edição da Festa Literária das Periferias – Flupp, encerrada no último dia 8, no Rio de Janeiro, foi a segunda edição do Rio Poetry Slam, evento que reuniu participantes de 16 países (alguns marcando presença pela primeira vez no evento, como a Polônia, África do Sul, Costa Rica, Angola e Gana) na disputa pelo título. A iniciativa foi realizada no complexo Babilônia/Chapéu Mangueira, e o grande vencedor desta “competição de poesia falada”, que se espalhou pelo mundo a partir de Chicago (EUA), foi o representante brasileiro – na verdade, um mineiro: João Paiva, também campeão do Slam BR de 2014.

Contabilizando apenas 25 anos de idade, Paiva nasceu em Belo Horizonte. “Cresci no bairro Olaria, na região do Barreiro”, especifica. Mesmo angariando respaldo ao fazer bonito nesta modalidade, que vem ampliando público para a poesia, ele prefere se esquivar do desafio de citar aquele que seria o grande nome, atualmente, do poetry slam. “Eu diria que é a POESIA”, diz, dando ênfase.

E prossegue: “Não tem um país que se destaque mais, os tipos de expressões são muito diversos, realidades muito diversas. Se a pessoa vai se destacar ou não, depende muito de como foi o dia dela, como foi o dia de cada jurado e da plateia. Isso tudo influencia na energia do poema e em como ele vai ser recebido”.

Antes de seguir em frente, vale pormenorizar este nicho, ainda não tão conhecido assim pelo grande público. Durante a competição de poesia falada, cada slammer tem três minutos para defender oralmente um poema autoral, fazendo uso da própria voz, sem interferência de música e sem um figurino desenvolvido para a ocasião. Esses poemas recebem notas de um júri formado aleatoriamente por pessoas da plateia. Vence quem fizer mais pontos ao final de três rodadas.

De acordo com a organização do evento, que teve curadoria da atriz e slammer Roberta Estrela D’Alva, “o poder de comunicação dos slammers chegou ao ponto de derrubar um dos principais mitos da indústria audiovisual brasileira, que dubla os filmes considerados blockbusters porque parte do princípio de que o público da periferia não lê legendas”: os jovens que acompanharam o Rio Poetry Slam leram as legendas projetadas em um telão posicionado por trás dos slammers.

Confira, a seguir, um bate-papo com João Paiva.

Como chegou até o formato poetry slam?
Tudo começou com os saraus de poesia da capital mineira. Conheci o sarau Vira-Latas por meio de uma amiga (Belinha) e, logo depois, o Coletivoz, um dos primeiros saraus de periferia de BH – e que completou sete anos em 2015. O Coletivoz acontece uma vez por mês – e depois que comecei a ir, há três anos, posso contar nos dedos as vezes em que faltei. E foi assim que conheci o Rogério Coelho e o Eduardo DW, que são os organizadores (da iniciativa). Viramos amigos e, quando eles descobriram a cena do Slam por meio de uns amigos de São Paulo, me chamaram para conhecer o cenário da poesia marginal de lá. Quando a gente voltou, não demorou muito para o Rogério começar a organizar o Slam Clube da Luta, o primeiro Slam de poesia de BH. Venci a eliminatória do Clube da Luta em 2014 e fui para São Paulo participar do SlamBR, com poetas de três estados (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro). Venci também e, em junho, fui para Paris, participar do Grand Slam que reuniu poetas de 24 países. Bem, lá, não passei da primeira fase, mas, por meio do SlamBR, conheci a (curadora e slam master) Roberta Estrela Dalva, que me convidou para participar do “Rio Poetry Slam”.

Qual é, na sua opinião, o maior desafio deste, digamos, formato?
Na verdade, para mim, o slam não tem desafio, eu o vejo como um sarau normal. Recito minhas poesias sem me preocupar muito com a competição, o jogo dá uma adrenalina a mais, mas não é o foco. Ja engoli alguns versos no meio da poesia, mas não parei, foi meio automático, só pulei o verso e falei o verso seguinte; às vezes troco a ordem das estrofes, mas isso não me atrapalha.

Quem é, hoje, o público que frequenta as competições de poesia?
Em Belo Horizonte, a maior parte do público do slam é de jovens da periferia. Os poemas geralmente têm uma carga política e engajada, isso atrai um público que se identifica com essa mensagem.

No material de divulgação do 2º Rio Poetry Slam, há uma observação referente ao fato de alguns dos principais expoentes desta modalidade serem negros... Você, particularmente, usa esse canal para a chamada “poesia de fundo político”? Em caso positivo, em que sentido?
Eu falo de coisas que me incomodam, coloco tudo que me incomoda nos versos, e procuro fazer com que a pessoa que está ouvindo pare para pensar sobre esse assunto. Na verdade, é só o João sendo o João.

Falando um pouco de sua história de vida... Quando começou a se interessar por poesia?
Desde sempre, por rap e poesia. Escuto rap desde que me entendo por gente. Eu pedi um CD do Gabriel, O Pensador de presente de aniversário, aos 8 anos de idade.

Além de Gabriel, O Pensador, você destacaria algum outro nome em particular que tenha marcado sobremaneira a sua formação intelectual?
Os poetas que mais marcaram minha vida foram Black Alien, Mano Brown, Eduardo (do grupo Facção Central), Black Factor, do grupo Are.Zona; Russo Apr, Mano Bill, Rogerio Coelho... Enfim, se for parar para falar todos, você vai gastar muito o teclado!

Atualmente, você consegue viver só de poesia?
Não, a poesia me proporciona momentos inesquecíveis, experiências únicas. Fiz – e faço – muitos amigos, e isso não tem dinheiro que pague. Mas dinheiro não, se vier vai ser bem recebido (risos), mas não é o foco.

É perceptível o incremento da cena poética com, inclusive, um número crescente de saraus, bem como iniciativas como essa, do slam poetry? Acredita que o público jovem, em particular, vem sendo tocado pela poesia?
Vem sim, o jovem se identifica muito com a poesia marginal porque é uma linguagem que faz parte do seu cotidiano.