Clint Eastwood nunca esteve na “capital mundial do calcário”, como uma placa rodoviária define Pains, cidade de oito mil habitantes localizada na região Oeste de Minas Gerais. Fisicamente, é verdade. Mas a característica voz do ator e diretor, que já espantou muito bandido na série policial “Dirty Harry”, não está muito longe de “visitar” o cenário do filme “Faroeste”.

Com o crescente interesse de produtores estrangeiros pelo longa-metragem – que terá sua primeira exibição pública no sábado (5), às 20h30, no Parque de Exposições Alvino Alves Pinto, em Pains – o diretor mineiro Abelardo Carvalho já vislumbra a possibilidade de concretizar um sonho: escalar alguns dos grandes caubóis do cinema para dublar os personagens em inglês.

Autêntico B.O. (filme de baixo orçamento), realizado com R$ 200 mil e sem nenhum tostão oriundo de editais públicos, “Faroeste” pode ter, além do “estranho sem nome” Eastwood, protagonista de vários bangue-bangues de Sergio Leone, nada menos do que Django, lendário pistoleiro vivido pelo italiano Franco Nero. Tudo isso proporcionado pela habilidade de Carvalho em transformar pouco dinheiro num autêntico western.

“Não tem cenas de confronto o tempo todo. É mais um drama rural, mas conta com as características essenciais ao gênero, como cavalo, revólver, gente andando armada e troca de tiros”, observa o cineasta nascido em Iguatama, município próximo de Pains. Foi o suficiente para Simon Egan, produtor ganhador do Oscar por “O Discurso do Rei”, se interessar pelo projeto e querer participar do lançamento de “Faroeste” no exterior.

Dublagem é "pulinho do gato"
 
Enquanto o dinheiro estrangeiro não entra para fisgar nomes de ponta do cinema hollywoodiano, o diretor de “Faroeste”, Abelardo Carvalho, se contenta com seu Clint Eastwood “brasileiro”: o dublador Márcio Seixas, sempre escalado para ser a voz em português do protagonista de “Menina de Ouro”.

Praticamente todos os personagens do filme são dublados por alguns dos mestres do setor, como Mauro Ramos e Orlando Drummond, de 95 anos, que estava aposentado dessa lida até ser convencido a repetir a voz do Sargento Garcia da série “Zorro”.

A dublagem, dirigida por Ramos, não só ajuda a aproximar a narrativa ainda mais do gênero como também é uma referência à infância de Carvalho. “Na minha cidade não tinha cinema. Via os faroestes na TV, dublados. Esse é o meu pulinho do gato no filme”, assinala.

Gatilho rápido

Nascido em Belo Horizonte, Seixas dubla o ator Vladimir Winter, “carne e osso” de Luís Garcia, um sedutor e temido bandoleiro que matou muitos desafetos na década de 1940. Inimigo número um dos dogmas católicos, era o gatilho mais rápido do Oeste (o mineiro, é bom esclarecer).

“Ele é um anti-herói, o que faz dele um personagem muito rico, capaz de despertar os mais variados sentimentos. Pode raspar a cabeça de uma negra e logo depois cobri-la com um lenço de seda maravilhoso”, destrincha Carvalho, que se apaixonou pela história há 30 anos, recontando-a primeiramente no livro “Bestiário”.
 
Ansiedade

Com essa história de bangue-bangue em mãos, o cineasta transformou a pequena Pains e arredores numa terra sem lei. A cidade se envolveu com a produção e uma das razões para a pré-estreia acontecer amanhã, muito antes de “Faroeste” ser inscrito em festivais de cinema, é diminuir “a ansiedade de 200 idosos de 80, 90 anos” que trabalharam no filme.

Com muito apoio dos moradores e de um cachê módico aceito pelos atores, Carvalho se orgulha de ter convertido água em vinho. “Transformei as precariedades em conceito e linguagem cinematográfica. Uma das soluções foi trabalhar o extra-campo, chamando atenção para o que está fora do quadro. Além de não deixar o filme ficar tosco, virou o ponto alto daqueles que já o viram”.
 
Realidade

Ele cita a cena em que o comandante da polícia (voz de Orlando “Scooby-Doo” Drummond) persegue Garcia com quatro soldados. “Se tivesse dinheiro, colocaria uns 20 soldados, saindo da realidade, do que era uma cidade pobre do interior de Minas no início do século passado”, ressalta.

São detalhes que fazem de “Faroeste” um longa fora do padrão “caviborgiano”. Cavi Borges é o nome do produtor, sinônimo hoje de filmes bons e baratos, como um Roger Corman (“A Pequena Loja de Horrores”) tupiniquim. “Não tem nada fora do lugar. Parece um filme de R$ 2 milhões”, avisa.