Ela não estava usando sutiã sob a camiseta branca. E quando, ao cair, o copo de cerveja se derramou sobre seu corpo, o tecido ficou transparente. E tudo começou. O estupro coletivo de uma garota de apenas 17 anos, por homens “decentes”, corretores de seguros, donos de concessionárias, quase todos casados, com filhos, que pagavam seus impostos em dia e à noite assistiam aos telejornais dá o start a “Culpa” (Editora Record, 176 páginas, R$ 32), nova investida literária do escritor (dublê de advogado) alemão Ferdinand Von Schirach.

Para fornecer as devidas credenciais, trata-se do “cara” que, nascido em Munique, em 1964, vendeu mais de um milhão de exemplares e se tornou uma das maiores revelações literárias em seu país com o livro de estreia, “Crimes” (lançado também no Brasil, em 2011, pela mesma Record). “Culpa” traz uma coleção de histórias narradas por uma voz que o leitor descobre ser de um advogado (sim, a mesma profissão do autor) contratado para o caso. Pelo exemplo citado no início deste texto, já dá para deduzir: a partir de “Festa Popular”, o conto em questão, o leitor mais sensível certamente chegará ao fim desta empreitada com sua estrutura emocional abalada – não só pelos eventos eletrizantes, mas pela riqueza de detalhes neles embutida, e que, por conta de sua própria profissão, Von Schirach dá conta de fornecer.

Justamente por isso, uma das histórias mais impactantes é a terceira, “Os Illuminati”, na qual um garoto, Henry, que é levado pelos pais para um internato no sul da Alemanha. Flagrado em um pequeno delito justamente por um grupo de garotos que decidiu, por conta própria, ressuscitar a ordem do século 18 que dá título à história, Henry passa a ser submetido a um ritual de horrores que chega ao ápice quando todos se reúnem certo dia, à noite, num matadouro desativado. É lá que o adolescente passa por provações que, ao serem esmiuçadas pelo autor, não espantaria que provocassem engulhos no leitor mais sensível.

Subjetivo ou não

A palavra “Culpa”, que dá título ao livro, suscita uma série de ilações. Basta uma conferida no leque aberto pelo seu significado. Vejamos um exemplo: “o processo de identificação e atribuição de culpa pode se dar no plano subjetivo, intersubjetivo e objetivo”. Ao longo das 15 histórias aqui reunidas, Von Schirach explora os vários “tipos” de culpa através de atores dos mais diversos.

Como exemplo, a culpa da mulher que, no passado, adolescente, ao ser abusada sexualmente, engravidou e deixou o recém-nascido morrer afogado ao dar a luz em uma privada. Passados os anos, ela sente o peso da culpa. E há o motorista do Mercedes que, por um acidente, aborta o que seria um crime dos mais hediondos – a morte de uma garota, com direito ao uso de um instrumental de dissecação – deu para perceber o tom que permeia a narrativa?

E há, ainda, o ser humano que, por razões tortas, incompreensíveis aos mais racionais, assume uma culpa que definitivamente não é sua. Não bastasse, há o que adota um ar blasé para a culpa que nele recai, fazendo pouco do que poderia obter de indenização do estado pelo erro cometido pelo judiciário.

São tramas curtas – as exceções ficam para o já citado “Os Illuminati” e “A Chave” –, mas devidamente envolventes, bem urdidas. Daquelas que o leitor chega a ficar impaciente para avançar na leitura de modo a conferir o desfecho. Problema, como já dito, é para os que têm estômago fraco.