A observação arguta de dois estudantes – Pedro Quintero e Vitor Brandão – sobre o trabalho de Adriano Paulino, que trabalha com estêncil em suas obras, acabou inspirando uma empreitada instigante: a dupla tratou de fotografar aproximadamente 40 pinturas de autoria do artista de rua (distribuídas em muros dos bairros Nova Floresta e Renascença) para uma exposição na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas). Foi também o ponto de partida a um convite, para o artista realizar uma intervenção recentemente, durante uma oficina sobre a utilização do estêncil como técnica e linguagem, no icônico “Prédio 13” da PUC Coração Eucarístico. 
 
A intervenção – que, na verdade, já foi retirada– agitou o campus. Adriano Paulino conta que a experiência foi vigorosa. “A turma gostou bastante. Tinha muita gente que já sabia cortar o estêncil, mas havia também aqueles que não sabiam trabalhar com a técnica, e acho que aproveitaram muito. O molde pode ser aplicado em vários suportes, como o vidro, a parede e o tecido, para dar alguns exemplos”, frisa o artista, que tem uma de suas obras com estêncil – uma “Carmen Miranda” – aplicada em um muro de um prédio, localizado na rua da Bahia entre a rua dos Tamoios e a avenida Afonso Pena, no Centro da capital mineira.
 
Publicitário de formação, Adriano se deixou tomar por sua alma de artista e, a partir de 1996, foi seduzido pelo estêncil. “Quando aprendi, nunca mais parei, é até mesmo um tipo de terapia. Eu tenho mais de 1.500 estênceis cortados”, avisa o pintor, de 42 anos. 
 
Ativismo político
 
Adriano considera que a técnica é, além de tudo, uma importante arma para o ativismo político, pela rapidez de sua propaganda. Muito mais, por exemplo, do que o grafite. “É super rápida (sua execução) e não é como o grafite, em que você fica horas em frente ao muro pintando. Com o estêncil é diferente, você coloca o molde no muro, joga a tinta e está pronto”, explica ele, que conta que o estêncil foi o grande agente de propaganda da revolta dos estudantes em maio de 1968, em Paris, através dos cartazes que eram reproduzidos – e que depois se alastrou pelos quatro cantos do mundo, também como poderosos suportes para a veiculação de ideias.
 
Ferramenta poderosa para a criação
 
André Novais Machado era ainda um garoto quando o estêncil surgiu em sua vida. E desde então, não largou mais essa linguagem tipicamente urbana. Agora, aos 27 anos, e recentemente graduado em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aprofunda o uso dessa técnica. 
 
Para tanto, aproxima essa linguagem com outras de reprodução de imagens. “É uma técnica mais marginal dentro das artes plásticas e eu, como artista, assumi essa linguagem como técnica de gravura. E hoje em dia aproximo ela a outras como a xilogravura, a litogravura”, diz André, que atende pelo nome artístico de “Comum”. 
 
Comum conta que seu trabalho é ligado basicamente à cidade, às coisas urbanas. “Busco retratar personagens urbanos, pessoas ligadas à marginalidade. Ultimamente tenho feito trabalho sobre a pichação na cidade. Assim, desenvolvo algumas gravuras em estêncil, com prédios famosos de Belo Horizonte pichados, como, por exemplo, ‘As Torres Gêmeas’ (localizadas na av. dos Andradas, no bairro Santa Efigênia), explica o artista, que trabalha com estêncil sobre papel e também sobre parede.
 
Além disso, Comum afirma que a técnica pode abrir portas a outras pessoas no seu dia a dia. “É uma linguagem que esteticamente reflete bem a rua, acessível para muita gente trabalhar. Quando dou oficinas, ensino essa técnica e sei que, na verdade, estou entregando uma ferramenta para essas pessoas criarem”, analisa.
 
André recorda que sua paixão pelo estêncil começou por seu ativismo político, localizado ainda na adolescência. “Participava de alguns grupos que usavam o estêncil dentro de uma linha política. Porque era uma forma de reproduzir a imagem com rapidez, a gente aproveitava para espalhar as palavras de ordem da época, como as críticas à publicidade, contra a lógica do consumo”, garante o artista, que trabalha em seu próprio ateliê.