Sede de alguns dos festivais culturais mais importantes do país, Minas Gerais viu vários destes eventos migrarem para plataformas on-line durante o ano de 2020, devido à pandemia. Uma mudança inesperada e radical que transformará para sempre a maneira de realizá-los, conforme avaliação de seus coordenadores.

Apesar de existir a expectativa de retomar o formato presencial, ainda considerado a melhor maneira de interagir com o público, a sensação é a de que o digital ditou um caminho sem volta para a cultura no país. Principalmente pelos números de acessos, que expandiram a participação de espectadores.

“A transmissão on-line veio para ficar realmente, uma descoberta que foi incorporada à programação com sucesso”, registra Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra de Cinema de Ouro Preto e da Mostra CineBH, realizadas, respectivamente, em junho e agosto, totalmente em plataformas digitais.

Ela observa que as plataformas de streaming já existiam, como fruto da revolução digital, criando uma cultura que foi sendo estimulada nos últimos anos. “Só que a gente não tinha incorporado como hábito. Para os festivais, foi muito favorável, abrindo uma possibilidade de ampliar a nossa atuação”, analisa.

Raquel pondera que, apesar da perda da referência geográfica, há um ganho ao fazer com que a programação ultrapasse fronteiras. “No nosso caso, que temos o cinema nacional como principal bandeira, estamos levando estes filmes para todos os cantos do Brasil, num país que tem poucas possibilidades de exibir a sua produção”.

Para Afonso Borges, criador do Festival Literário de Araxá, cuja nona edição foi feita virtualmente em outubro do ano passado, o “novo” será assimilado com muito mais facilidade do que antigamente. “Estamos mais preparados para modelos diferentes. Vou além: estamos ansiosos por isso. E eles virão cada vez mais surpreendentes, tenho certeza”.

Borges salienta que a live convencional já “deu” e que o grande diferencial virá da criatividade. “Os festivais literários e seus curadores terão que se desdobrar para inventar novos formatos. Não exploramos nem 1% do que a tecnologia pode oferecer”, avalia o coordenador, que também migrou o projeto “Sempre um Papo” para o universo digital.

À frente da Mostra de Cinema Curta Circuito, Daniela Fernandes ficou surpresa com o número de visualisações - cerca de 58 mil. Quantidade muito superior ao que seria obtido de forma presencial, no Cine Humberto Mauro, palco habitual da mostra, com 129 assentos. Como foram exibidos sete filmes, o máximo  que obteria, somando todas as sessões, seriam 903 pessoas.

“Como são filmes antigos, houve um grande interesse de norte a sul por eles”, destaca Daniela. A coordenadora também realizou a primeira edição do CineFoot Mulheres – dedicado a filmes sobre mulheres no futebol - em formato digital. Alcançou 14 mil visualizações. O festival também apresentou 14 horas de programação paralela, disponibilizados de forma permanente nas redes sociais do CineFoot Mulheres.

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Para Afonso Borges, curadores terão que se desdobrar para inventar novos formatos

 

"Virtual é bom somente quando é um acréscimo ao presencial"

Nem tudo foram flores nesta mudança compulsória para o mundo digital. “Tudo que é novo para nós, vira um desafio”, alerta Daniela, que encontrou a resistência de alguns realizadores, no caso do CineFoot Mulheres, porque a exibição do filme ocorreria na internet. “O filme era novo e ele queria fazer antes um circuito de salas”, lamenta.

No caso do Curta Circuito, ela não teve que fazer uma nova negociação com os produtores. Como uma das obras já tinha um acerto para lançamento em streaming com outra plataforma, a coordenadora conseguiu que o filme fosse liberado por 24 horas. “Como houve esse limite, estendemos isso a todos os outros trabalhos”.

Daniela confessa que ficou um pouco temerosa com a tamanha dependência de tecnologia, receando que o público não conseguisse obter acesso ou que a plataforma usada não fosse confiável, além da possibilidade de hackearem os filmes. “Um cenário totalmente novo em que nos jogamos no escuro, mas felizmente deu tudo certo”, avalia.

Belo Horizonte foi fechada uma semana antes de o Curta Circuito começar, o que gerou outra dor de cabeça: 80% do orçamento já tinha sido empenhado no formato presencial. “A cidade fechou e ficamos com este prejuízo. Tivemos que passar para as plataformas de streaming, que são muito caras. A Looke foi muito generosa com a gente neste sentido”.

Para Afonso Borges, o virtual é bom somente quando é um acréscimo ao presencial. “Do jeito que foi, está sendo e será, é o pior dos mundos”, afirma. Ele também levanta questões de ordem fisiológica, com o acarretamento de problemas de saúde ao permanecer muito tempo em frente de telas de celular e computador.