Afeto, criatividade e resistência. São estes três elementos que justificam o trabalho de Daniela Fernandes à frente da coordenação de festivais de cinema na capital mineira. Enquanto o primeiro “filho” (a Mostra Curta Circuito) chega à maioridade, completando 21 edições, ela deve dar à luz nesta quinta-feira a um novo rebento: o Matula Film Festival, que traz uma proposta – para não fugir ao clichê – saborosa, ao unir gastronomia e cinema.

Com exibições de filmes, oficinas, debates e “comidinhas” para acompanhar, o festival será realizado de forma online e gratuita. Diabética, Daniela teve a ideia para o Matula após receber as famosas marmitas com doces diets da tia Luci. Durante a pandemia, os quitutes serviram para dar um “calorzinho no coração”, um afago para quem não pode sair de casa por nove meses, no momento inicial da transmissão do vírus no país.

A história de Daniela com os festivais começou há 17 anos e, como não poderia deixar de ser, teve como palco uma mostra de cinema – o Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte, realizado no Cine Humberto Mauro, que mais tarde seria a tela principal dos eventos criados pela produtora cultural. “Foi lá que eu conheci o Cláudio e o pessoal da (associação) Curta Minas”, lembra.

“Fazer o Matula era um grande sonho, que está se realizando agora de uma forma muito bonita”, registra Daniela, sem esconder o que vem a seguir. “Os próximos caminhos são no campo da produção para TV. Estou com três projetos, além de uma publicação. Ainda tenho muito frutos para dar”, assinala, mostrando uma fertilidade rara e invejável de ideias. Apesar de levar uma vida diet,  se depender de Daniela a fatura deverá ser a tônica na mesa cultural dos mineiros.

Apesar de Minas Gerais ser sinônimo de boa comida e filmes premiados, a união do cinema com a gastronomia demorou a acontecer. Como surgiu a ideia do Matula Film Festival?
Era algo que eu estava me questionando mesmo. São duas tradições muito fortes em Minas e estranhamente não existia nenhum festival que unisse essas artes. (O surgimento do Matula) foi um acaso bem interessante, porque a pandemia acabou nos isolando. No meu caso, fiquei nove meses isolada em casa e lembro de o Cláudio (Constantino, produtor executivo do festival) trazer matulas da tia Luci, mãe dele, com arroz doce e canjica diets – como sou diabética, tenho algumas limitações de alimento. Isso me confortava muito, dava um calorzinho no coração. Logo me vinha à cabeça a minha avó. Sempre que a gente ficava doente a vovó Ivone, que mandava uma matulinha de engrossado de fubá para melhorarmos. Neste período, a comida vinha como forma de cura, de afeto e afago. O Matula surgiu assim, de uma forma simbólica. Mesmo com a vovó já não estando aqui, é uma forma de homenageá-la e, ao mesmo tempo, levar a matula com segurança para a casa das pessoas e dar um pouco de conforto.

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Quais os critérios que amarram o cardápio gastronômico à seleção de filmes?
A gente teve um casamento superinteressante com o Guilherme Lobão. A gente não podia ter escolhido pessoa que mais se encaixasse com a nossa essência. Ele soma a este projeto de uma forma tão incrível, uma parceria que, a gente acredita, vai durar muito tempo. O critério que amarra o cardápio e os filmes é sempre o afeto, além da criatividade. Tem ainda a questão da tradição, pois há obras que falam do lado afetivo destas tradições. É o que a gente vem chamando de ingredientes de afeto. É ele que permeia toda a nossa programação, da escolha da equipe aos filmes. Ao mesmo tempo que, na curadoria, a gente faz esse resgate histórico, contando um pouco, por exemplo, a nossa tradição no queijo, ainda também traz filmes inéditos no Brasil, como o peruano “Sembradoras de Vida”, dos irmãos Diego e Álvaro Sarmiento, que teve a sua estreia no Festival de Berlim do ano passado. Ele mostra a luta de mulheres dos Andes para manter a forma orgânica de trabalhar com a terra. Esta questão orgânica vai permear sempre os filmes selecionados pelo Lobão. Em quase todos eles, vemos pessoas tentando lutar para sobreviver, a partir de seus pequenos negócios.

Um dos destaques da programação é “A Dona do Tacho”, sobre Nelsa Trombino, conhecida por seu trabalho à frente do premiado restaurante Xapuri, em Belo Horizonte. Você acredita que o festival poderá servir de estímulo para a produção de outras obras envolvendo a culinária mineira?
Sempre quando trazemos a proposta de um festival novo, acreditamos que podemos estimular a produção local. Para nós, é muito importante ter essa memória, como o que foi feito com o documentário “A Dona do Tacho”, que apresenta o testemunho de Dona Nelsa em vida. Acreditamos muito no valor da memória e da preservação dela. O Matula mostra isso, ao revelar tantas histórias incríveis. Há ainda muita produção boa por vir.

Ao mesmo tempo em que nasce o Matula, um outro festival coordenado por você, a Mostra Curta Circuito, chega à maioridade, completando 21 edições. A Mostra tem alcançado os seus objetivos, apesar da pandemia?
É uma forma de colocar no mundo um outro projeto, tão especial quanto o Curta Circuito, que tem um desdobramento, uma essência própria. A gente também quer que o Matula dê frutos e tenha vida longa. Em relação ao Curta Circuito, no ano passado a gente ficou muito inseguro de como reagiria de forma online, sendo que a presença e o contato dos diretores com o nosso público é tão especial. Foram encontros inesquecíveis. Por outro lado, havia muita força de vontade para que o projeto não parasse e que ele pudesse se reinventar. Num ano muito difícil, a gente teve muita coragem. Foi uma luta para fazer, mas nada que nos fizesse arrepender. Pelo contrário. Uma parte do online veio para ficar. Conseguimos fazer uma estrutura de redes sociais muito interessante. O Matula já nasce online, mas ele não é para continuar assim. O momento é de resistência na área da cultura. O Matula tem as bênçãos do Aldir Blanc (nome do compositor que morreu de Covid-19 em 2020 e que batiza uma lei nacional de auxílio emergencial à cultura). Tem tudo para dar certo.

Qual será o tema da 21ª edição do Curta Circuito, que será realizado no segundo semestre?
A gente chega à maturidade tentando uma forma mais leve, abordando a música no cinema brasileiro. Precisamos mais do que nunca de muita música em nossas vidas. Com parceria com outros projetos criativos da cidade, estamos bolando algo muito especial. Fazer um festival na pandemia e num momento de tanta incerteza e desmonte é um ato de resistência. A gente vai resistir até o final. Está no nosso sangue lutar.

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Além do Matula e da Mostra Curta Circuito, você coordenou até o ano passado a versão mineira do CINEfoot – Festival de Cinema de Futebol. De onde vem este interesse em criar festivais?
Só entro num projeto se acredito muito nele. Quando eu entrei para o Curta Circuito, ele já tinha quatro anos. Eu e o Cláudio somos os que estão mais tempo no projeto. Ele foi tão simbólico para mim, pois crescemos juntos. Foi uma grata surpresa vê-lo crescendo, tomando um corpo, tendo uma essência, fortalecendo o poder do encontro, vendo o passado para pensar o presente e o futuro. Ele não nasce de uma ideia minha, mas sempre cuidei bem dele. Eu também trabalhei muitos anos no CINEfoot, mas neste ano já não farei parte, para me dedicar ao Curta Circuito e ao Matula. São dois projetos que já ocupam bastante a minha agenda, envolvendo uma carga emotiva muito forte. E tem outros projetos que estou tirando da gaveta e espero que também ocupem um lugar próprio.