Infláveis enormes ocuparão o viaduto Santa Tereza, fazendo uma espécie de cobertura na passagem dos veículos. A intervenção, de autoria do artista indígena Jaider Esbell, de Roraima, é uma das novidades da quinta edição do Cura - Circuito Urbano de Arte, que será realizado de 22 de setembro a 4 de outubro, na região central de Belo Horizonte.

Mesmo sem a possibilidade, devido à pandemia, de reunir pessoas para contemplar, do mirante instalado na rua Sapucaí, o desenvolvimento de pinturas que serão feitas nas laterais de prédios, o Cura não só foi mantido no calendário como também se reinventou, abrindo-se para novas possibilidades, como atesta a organizadora Priscila Amoni.

Ela destaca que, para escolher os artistas que pintarão as quatro “empenas” de edifícios do hipercentro, a curadoria foi compartilhada pela primeira vez. Com o convite a Arissana Pataxó, da Bahia, e Domitila de Paula, de BH, o time feminino passou a contar com cinco nomes, juntando-se às organizadoras Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni.

Com a quinta edição, serão 18 obras de arte em fachadas e empenas, formando a maior coleção de arte mural em grande escala já feita por um único festival brasileiro

“Abrimos o próprio lugar de poder da curadoria, dando voz a mulheres de outras origens. Pois não basta escolhermos mulheres negras para pintar. Era necessário que as mulheres negras dissessem quem que elas querem que pintem. Assim como as indígenas. Com isso, trazemos mais democracia para o festival, para ele ficar mais horizontal e transversal”, assinala Priscila.

Este processo de abertura também levou à criação de um edital para artistas se inscreverem. “É algo que sonhávamos desde a primeira edição. Muitos artistas queriam esta oportunidade. Para nós, é muito bom poder conhecer artistas do Brasil inteiro e tê-los no nosso radar, pois a gente acaba ficando viciado em alguns artistas. Agora ampliou o nosso leque imensamente”.

Bandeiras

Também serão entregues duas grandes instalações de arte pública no Centro da cidade, uma em cada lado do que Priscila chama de “horizonte do mirante”. Além dos infláveis de Esbell no viaduto Santa Tereza, cinco artistas exibirão obras manifestas no antigo prédio da Faculdade de Engenharia, na avenida do Contorno. 

de “Bandeiras na Janela”, a intervenção urbana reunirá trabalhos de Randolpho Lamounier, Ventura Profana, Célia Xacriabá, Denilson Baniwa e do coletivo Cólera e Alegria, liderado por Rivane Neuenschwander. “Essa intervenção dialoga bastante com o momento que estamos vivendo, simbolizando os artistas que estão dentro de casa, colocando suas artes pela janela”, registra Priscila.

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Festival terá galeria virtual para venda de obras de 50 artistas

 

A situação da cultura durante a pandemia, com vários espaços tendo que fechar as portas, se tornou um estímulo para que as organizadoras não cancelassem o Cura. 

“É uma forma de, além de manter a cena movimentada, em termos culturais, de arte nova sendo feita, fazer uma distribuição de renda para os artistas que estão precisando trabalhar”, afirma Priscila Amoni.

O festival também resolveu ir “para dentro da casa” dos espectadores. No site do Circuito, as pessoas poderão acompanhar passo a passo o desenvolvimento das pinturas dos prédios. 

“Vamos trazer a experiência da pintura para quem vai acompanhar o festival virtualmente. Antes tínhamos uma filmagem com drone e agora vamos entrar no balancinho do artista, fazendo um acompanhamento diário da pintura”, adianta.

O Cura também presenteou Belo Horizonte com o primeiro e, até o momento, único mirante de arte urbana do mundo. Todas as pinturas realizadas no hipercentro da capital mineira podem ser contempladas da rua Sapucaí

O Cura criará ainda uma galeria virtual, com obras de 50 artistas colocadas à venda. Quinze por cento de cada transação irão para um fundo geral, com o valor total sendo redistribuído igualmente entre os artistas. 

“Assim, mesmo se tiver um mais famoso, que vende mais fácil, e outro mais novo que não está vendendo, todos serão contemplados. Foi uma forma de democratizar e manter essa energia, de trazer arte para todo mundo na cidade”.

Seleção
Dos quatro artistas convidados para as pinturas, três já foram anunciados: Daiara Tukano, de São Paulo, ativista dos direitos indígenas e comunicadora; Lídia Viber, de Belo Horizonte, referência em representatividade feminina no graffiti e muralismo contemporâneo; e Robinho Santana, de Diadema (SP), que busca a representação plural e digna da mulher e do homem negros periféricos.

O quarto nome sairá de uma seleção de 400 inscritos de todo o Brasil, a ser anunciado pela comissão curadora nos próximos dias.