A produção de documentários musicais cresceu tanto no Brasil que os curadores da Mostra In-Edit já não precisam fazer muito esforço para fechar a programação do festival, que começou há dez anos em São Paulo e agora está em cartaz em Belo Horizonte, no Sesc Palladium, numa versão especial. Na última edição, foram inscritos nada menos do que 122 filmes, entre curtas e longas-metragens.

 
“Nestes dez anos já exibimos mais de 300 filmes, cada um com a sua característica. No início, ninguém nos conhecia, mas depois o festival foi se impondo e hoje ele se tornou a melhor janela para um documentário musical estrear”, observa o coordenador Marcelo Aliche, que se inspirou num festival de mesmo nome realizado na Espanha, dedicado a obras do gênero feitas no mundo inteiro.
 
Hoje, ele se tem orgulho de dizer que, em matéria de conteúdo nacional, o festival brasileiro superou a “matriz” – apesar de ter uma indústria forte, os espanhóis não produzem mais do que 30 documentários musicais por ano. “Antes de falarem deste boom, tinha muita coisa escondida. Tinha uma produção de qualidade, só que ninguém sabia”, afirma Aliche, citando os curtas do pioneiro Humberto Mauro, como “A Velha a Fiar”, de 1964.
 
Na versão mineira, serão exibidos, até o dia 23, onze títulos, alguns deles ainda inéditos em Belo Horizonte, como “Eu, Meu Pai e Os Cariocas”, de Lúcia Verissimo, “Dê Lembranças a Todos”, sobre Dorival Caymmi, assinado por Fabio Di Fiore, e “O Piano que Conversa”, dirigido por Marcelo Machado, realizador de “Tropicália” que dedicou o novo filme ao pianista Benjamin Taubkin.
 
Sem palavras
 
O documentário sobre Taubkin, que será apresentado nesta terça-feira (18), com a presença do músico, tem um formato inusitado, abrindo mão de depoimentos. Ou, como prefere Machado, “sem palavras, valendo-se apenas da matéria-prima musical”. Não deixa de ser curioso que o cineasta use o termo “conversa” para definir os encontros musicais de Taubkin com diferentes tradições, no Brasil e no exterior.
 
“É uma conversa no sentido de ouvir esses músicos e aprender com eles”, registra Machado, que, desde os anos 80, vem se dedicando à relação entre música e cinema. “Tropicália” foi o trabalho que lhe deu maior projeção. Ele conta que, neste projeto, já vivia o embate de fazer um documentário em que pudesse diminuir o quanto possível as entrevistas.
 
“A Tropicália aconteceu principalmente nos anos de 1967, 1968 e 1969. Queria que as pessoas tivessem uma noção daquela época e, por isso, não mostra as imagens de Gil (Gilberto), Caetano (Veloso) e Tom Zé hoje. A gente só ouve a voz. Só Gal (Costa) aparece de cabelos brancos, mais no final. Esse dispositivo funcionou muito bem, dando a cara que o filme tem”, analisa.
 
O desafio em “O Piano que Conversa” é o fato de Taubkin – que também fará uma aula-show na quarta, às 20h, no Teatro de Bolso – não ser um popstar. “O filme não tem "a garota da capa", com uma abordagem mais sensorial. Benja é exatamente isso, mostrando um trabalho incansável em busca do novo, sem fazer concessões. O público dele é de 40 a 60 pessoas por show, que fica bem próximo do cara”, registra.
 
No seu próximo filme, sobre o cantor e compositor Arnaldo Antunes Machado, vai apostar na palavra. “Mas só com ele, com o Arnaldo falando sozinho de sua obra, não só da música e da poesia, mas da palavra que une tudo”, adianta o realizador.
 
Mostrra In-Edit Brasil – 10 Anos – Até o dia 23, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro). Ingressos: gratuitos com retirada 30 minutos antes de cada sessão. Veja programação no site in-edit-brasil.com/program
 
CARIOCAS

Entre os seus fundadores de Os Cariocas está Severino Filho, pai de Lúcia Verissimo, que realizou um filme sobre o grupo

 
Atriz faz documentário afetivo sobre o pai, fundador dos Cariocas
 
Lúcia Veríssimo cansou do Brasil. Famosa nos anos 80 e 90 por sua participação em várias telenovelas da Rede Globo, a atriz de 60 anos se mudou para Portugal e Itália, muito por conta do tratamento que o país dá à memória cultural. Uma das razões de ter se lançado como diretora de cinema no documentário “Eu, Meu Pai e Os Cariocas”, destaque da extensão mineira da Mostra In-Edit, é não deixar se apagar a rica história de Os Cariocas, conjunto vocal criado em 1942 por seu pai, Severino Filho, e pelo tio Ismael Neto. “Viver num país desmemoriado sempre me incomodou”, desabafa Lúcia.
 
Como foi levar para a tela uma história de 70 anos que atravessa vários momentos da Música Popular Brasileira?
O filme tem como mote principal uma frase do Tom Jobim, de que toda música é reflexo de sua época. Assim, a história de Os Cariocas corre paralelamente à política, discutindo a influência sociocultural da política na música brasileira. Esse é o diferencial do filme, o que é sensacional, pois nenhuma história da MPB foi contada por esse viés. Meu pai sempre teve uma influência política no trabalho dele. Foi justamente o que meu deu o caminho para essa direção.
 
O grupo Cariocas foi um dos primeiros a gravar “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, com João Gilberto ao violão 
 
Seu pai foi um homem de esquerda, de postura sempre contestadora.
Sim. Meu pai teve a primeira oportunidade, na década de 40, na Rádio Nacional, que foi criada no governo de (Getúlio) Vargas. Ela foi a maior incubadora da música nacional. Apesar de ditador, Vargas era extremamente culto. Fazia festas populares de graça no São Januário, estádio do Vasco – na época, não tinha ainda o Maracanã. A pessoa entrava e via (Heitor) Villa Lobos e sua orquestra. Veja a categoria... Mas quando o rock entrou com a (rádio) FM, ele aniquilou a nossa música. Para concorrer, só fazendo rock também. Teve o tropicalismo, que foi importantíssimo, mas o movimento teria se apagado se a Gal (Costa) não tivesse ficado no país (durante a ditadura militar) e continuasse a divulgá-las, já que os cabeças, Gilberto Gil e Caetano Veloso, estavam exilados.
 
O filme conta com mais de 60 depoimentos, dos mais diversos momentos da história da MPB. Como foi essa seleção?
Todo mundo da MPB que você imaginar, está no filme. Os artistas que aparecem no filme foram todos eles influenciados diretamente por meu pai. Pessoas que estavam no final da adolescência e início da vida adulta, como Marco Valle, Roberto Menescal e Chico Buarque. Papai, que estava à procura de novos compositores, pegava esses meninos de 16, 17 anos, que compunham maravilhosamente bem, e os lançava. O único que ficou faltando foi o João Gilberto, que queria fazer, mas acabava adiando (a entrevista) por causa da saúde complicada. Chegou uma hora que não dava mais para esperar.
 
Você cresceu em contato com todos esses artistas, com esse universo musical. Essa intimidade também passa o filme?
Desses 70 anos, eu vivi 60. Só perdi dez anos. No filme, fiz a câmera um. Então os entrevistados falavam para mim, atrás da câmera. Minha história e a deles estão entrelaçadas, começando como amigos de meu pai e, depois, sendo meus amigos. Nunca deixei de ver essas pessoas. Talvez por isso, elas sentam e começam a contar histórias. O Milton Nascimento, que é tímido, ria, estava bem relaxado. O Caetano fala de um espetáculo e diz, olhando para a câmera, que “você estava lá, sentada do meu lado”. 
 
"Enquanto o Brasil não tiver educação de verdade, vejo poucas possibilidades de o país entrar nos trilhos novamente”, observa Lúcia Veríssimo
 
Como foi a relação de Milton Nascimento com Os Cariocas?
Tem milhares de histórias. Milton gravou várias músicas de Os Cariocas e fizeram muitos shows juntos. No filme, ele canta uma música do meu tio (Ismael Netto, também integrante do grupo), à capela. Ela é triste, dolorosa, e ficou linda na voz do Bituca. Ele também faz uma imitação da voz da minha tia (Hortênsia Silva), que é muito divertida.
 
Você tem uma longa carreira como atriz, tendo participado de novelas como “Roda de Fogo”, “Mandala” e “O Salvador da Pátria”. Pretende continuar investindo na carreira de diretora?
Estou com dois roteiros novos prontos. Mas ainda estou trilhando o caminho desse filme. (A circulação) Não acabou. Nas próximas semanas, ele passará na Dinamarca e na Itália. Já ganhei muitos prêmios, graças a Deus. Isso me deixa muito feliz, porque a genialidade deste homem precisava se contada. Ela não pode ser perder num país sem memória como é o Brasil. Todo mundo conhece a música “Valsa de uma Cidade”, espécie de hino da cidade do Rio de Janeiro, mas não sabem que ela é do meu tio. Viver num país desmemoriado sempre me incomodou. Estou escrevendo um roteiro sobre o fim da Monarquia e o começo da vida republicana brasileiro e vejo o quanto está errada a história contada nos livros. É uma mentira danada. Tudo passa pelo viés do interesse de mercado. Ninguém quer fazer as pessoas pensarem, colocando todas as cartas na mesa.