Editor e um dos criadores da Balão Editorial, Guilherme Kroll ressalta que eventos como o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) e o CCXP “passaram a ser essenciais para um escoamento da produção, tanto no consumo quanto para a confecção dos quadrinhos” e que lamenta que este período de pandemia tenha prejudicado tal mercado em 2020. No entanto, se mostra otimista: “Por mais que essa crise seja um duro golpe, nossa cena atingiu uma massa crítica e não vai acabar por conta dos percalços. Espero que voltemos mais fortes após tudo isso”.

Kroll, que recentemente se tornou também consultor da Conrad, é um dos palestrantes do FIQ Em Casa, versão online do FIQ. O festival tem início nesta sexta-feira e vai até o dia 3 de julho, com lives a serem realizadas pelo canal da Fundação Municipal de Cultura no YouTube e pelas redes sociais do evento: Instagram, Facebook e Twitter.

Quadrinhos

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Festival bienal, o FIQ aconteceria entre 27 e 31 de maio, mas a 11ª edição precisou ser cancelada por conta da pandemia do novo coronavírus. Depois disso, renasceu em formato online. “O intuito é o de manter o festival deste ano, mesmo que com uma edição especial (online). Seria importante para manter o fomento ao mercado, estimular o debate e disponibilizar conteúdo relacionados aos quadrinhos e animação”, ressalta Ana Freire, diretora da Política de Festivais da Fundação Municipal de Cultura. 

Entre as atrações, estão lives com quadrinistas e animadores, entrevistas com pesquisadores, editores e produtores de conteúdo sobre perspectivas de mercado, exibição de vídeos em que desenhistas vão mostrar sua rotina de trabalho em casa e o compartilhamento de materiais online gratuitos durante o período do evento. Haverá intérpretes de libras nas transmissões.

HQ

“Foram pensados temas bem diversificados para que haja um alcance bem democrático, como o FIQ sempre fez. A intenção é movimentar esse mercado e ampliar cada vez mais o público, principalmente agora considerando o uso de plataformas virtuais, em que há um alcance nacional e internacional”, destaca Ana.

Guilherme e a Balão

A live com Guilherme Kroll, juntamente com Germana Viana, sobre mercado editorial, acontece nesta sexta-feira, às 16h. “Pretendemos discutir formas e estratégias de driblarmos isso (efeitos da pandemia) e mantermos a chama da publicação de quadrinhos acesa”, ressalta Kroll, que faz um balanço positivo do recente cenário de HQs.

“Acho que uma maior diversidade de autores, de editores e de leitores é um grande ganho para o mercado de quadrinhos. As tiragens estão menores, sim, mas acho que temos mais gente interessada em ler coisas diferentes. Se pegarmos 20 anos atrás, a cena de publicação era muito menor, no sentido que a maioria das obras publicadas eram estrangeiras, e havia poucos títulos disponíveis. Hoje o panorama é outro, e espero que o futuro nos reserve o surgimento de mais autores, mais editoras, mais gente produzindo, vendendo, comprando e lendo quadrinhos no Brasil”, completa.

Guilherme Kroll

Guilherme Kroll é um dos fundadores da Balão

Com relação a planos futuros da Balão, ele diz que já há algumas “coisas engatilhadas”, como o “emocionante ‘Aconteceu Comigo’, da Laura Athayde, no qual ela desenha situações que mulheres passaram e contaram para ela via redes. Cada página, uma história de partir o coração. Uma obra muito necessária”.

“Temos também, no momento em financiamento coletivo, a nova HQ de Leo Finocchi, ‘Visita’, sobre um jovem que recebe uma visita especial. Está programado também o livro do Érico Assis, de ensaios sobre quadrinhos ‘Balões de Pensamento’. Do que podemos adiantar é isso”, diz.

Aline Lemos e o cenário atual

A ilustradora e quadrinista mineira Aline Lemos, que se dedica a temas mais políticos na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, também marca presença no FIQ deste ano. Na próxima quarta-feira, ela estará numa live com Luli Penna, chamada “Experimentações em Quadrinhos”, além de mostrar sua rotina de trabalho em casa, em 30 de junho.

Aline Lemos

Aline Lemos vai lançar em breve seu livro 'Fogo Fato'

“O momento de pandemia é muito desafiador para os autores, não só por motivos econômicos mas também no sentido emocional, pois afeta nossa profissão. Acredito que passamos por uma transformação que vai exigir novas formas de relacionar com o mundo mesmo, e tudo se reflete na nossa prática”, relata ela, mestra em história, mas que passou a se dedicar aos HQs, se tornando umas das referências no país.

“No ano passado, ganhei um prêmio HQMIX, e isso foi um reconhecimento muito grande dessa luta (da mulher no cenário das HQs). As mulheres não apenas fazem parte do nicho mercadológico como também tem presença integrada em nossa cena cultural”, destaca.

E quanto aos próximos passos, Aline? “Os planos estão pausados, um momento difícil para se fazer planos futuros. Pessoalmente estou tentando aceitar isso neste momento. Tenho uma sorte e um privilégio muito grande de não ter um trabalho externo, então posso ficar em casa. Não lancei ainda o livro ‘Fogo Fato’, estou considerando fazer este lançamento online em breve, mas ainda não planejei isso. Estou trabalhando, tentando me cuidar”, comenta.

Paulo Moreira

Uma das atações do FIQ, Paulo Moreira lançou em 2019 o livro 'Ana, Mosquinha e Lagatixinha'