“O que vai ter para o almoço de domingo?”. É a partir desta pergunta que o músico Wilson Dias criou o festival “Viola de Feira”, que começa neste domingo a sua quarta edição, agora em formato totalmente digital.

Apesar de, desta vez, o público estar em casa, sem poder frequentar a feira para comprar os itens que figurarão no almoço, como acontecia no Centro Cultural do Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, a ideia de um “aquecimento” não muda muito.

“Agora as pessoas estarão preparando o almoço, em casa, e ouvindo viola na televisão ou no computador, com a alegria que geralmente toma conta da cozinha nos domingos. É este sentimento que vamos levar para elas”, registra Dias.

O “Viola de Feira” nasceu como um contraponto às grandes exposições, que também faz essa junção alimentação e shows. “Mas lá são os grandes nomes que tocam e há um certo distanciamento com o público”, compara.

Dias não abre mão do “olho no olho”, por ser uma característica das violadas. “É um instrumento que foi forjado no ambiente coletivo, como a catira (dança do folclore brasileiro em que se apresentam de seis a dez dançarinos e dois violeiros)”.

A transmissão digital não é de todo estranha para o festival. No ano passado, foi feito um experimento como extensão da terceira edição. “Foi interessante, porque já tomamos base do que seria um futuro projeto”, avalia.

A principal adaptação está no tamanho dos shows. Durante quatro domingos, as apresentações contarão com cinco violeiros diferentes, que, juntos, não ultrapassarão mais do que 1h30 de transmissão.

“Estamos pedindo licença para entrar na casa do público, aumentando ainda mais este contato íntimo que a viola tem com o público”, destaca Dias. Todas as apresentações foram gravadas, o que possibilitou um processo elaborado de mixagem.

Doze gravações foram feitas em BH, mas outras vieram do interior mineiro, de São Paulo e até de Portugal, onde o músico João Vilela está fazendo um curso de doutorado. “Nosso desejo era até abraçar mais pessoas, mas os recursos não permitiram”.

Participação maior das mulheres

Wilson Dias destaca o momento especial que a viola caipira vive hoje, deixando de ser mera coadjuvante para atuar em diferentes frentes. “Hoje ele protagoniza projetos Brasil afora, com Minas Gerais saindo na frente. Aqui ele foi transformado em patrimônio”, observa.

O festival “Viola de Feira” é um reflexo desta diversidade. “O instrumento tem n possibilidades, com cada violeiro exibindo uma forma, uma pegada. Na hora de montarmos a programação, buscamos trazer esta diversidade para cada dia do festival”, assinala.

O organizador, por exemplo, fez questão que uma violeira abrisse cada apresentação. “A mulher começa a conquistar o seu espaço também na viola, num universo até então masculinizado, como quase tudo no mundo. Novos nomes estão abraçando a viola como profissão mesmo”, analisa Dias.

Para o criador do festival “Viola de Feira”, uma mulher na viola é sinônimo de uma certa suavidade e delicadeza no tocar. “Viola, para gente, tem alma feminina. Pegar a viola é como abraçar o ser amado. A violeira já traz este sentimento, esta primeira imagem”, comenta.