A topografia ondulada de Belo Horizonte foi a inspiração para o percussionista paulista Carlos dos Santos, 23 anos, vencedor do Festival Tinta Fresca 2012, compor a música "Horizonte" que terá sua estreia mundial, nesta terça-feira (12), com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. A obra, que é o prêmio do Festival, foi pensada mais no aspecto melódico do que harmonicamente. "O resultado dos instrumentos, das linhas são mais individuais do que o coletivo. São variações de um mesmo tema", comenta o artista.

Horizonte dialoga com "Enigma" (obra que consiste de um tema e 14 variações), de Edward Elgar (Inglaterra, 1857-1934): inicia-se pelo tema no contrabaixo, o "enigma" deformado, do qual se desdobram variações em estilo rapsódico. Vislumbra-se técnica e intuição em um mesmo horizonte. "No final, coloquei o ritmo mineiro conhecido como Serra Abaixo. Tem muita percussão. Ao longo da composição, exploro o caráter ondular de Belo Horizonte", metaforiza, Santos.

O percussionista, que escreve a música a mão e repassa para o programa digital, conta que se surpreendeu positivamente com o resultado prático que escutou, ontem, durante o primeiro ensaio com a Filarmônica. "Toda vez que há uma estreia, ajustes são feitos, existem muitas dúvidas por parte das orquestras, o que é normal. Aqui em Minas foi uma surpresa muito boa. Há emoção junto à execução", enfatiza Santos. O resultado final será conferido no último ensaio feito nesta terça, pela manhã.

Bem diferente de um concerto em geral, quem for ao Palácio das Artes, vai notar um grande vazio na parte esquerda do palco. São 14 minutos de música sem violinos. "Horizontes tem como estrutura composições modulares. A mudança de tempo é orgânica, ao mesmo tempo traz emoção em função da percussão", destaca o diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Fábio Mechetti. O maestro comenta que Santos coloca na obra suas impressões da cidade.

Para encerrar a noite, a Filarmônica de Minas Gerais apresenta o "Concerto para violino em Ré maior", de Johannes Brahms (Alemanha, 1833 – Áustria, 1897), com a solista japonesa Kyoko Takezawa, reconhecida como uma das grandes virtuoses do violino na atualidade. A violinista se apresenta com um Stradivarius "Campocselice" (de 1710), emprestado a ela pela Fundação de Música Nipônica. Sua relação com Mechetti é antiga: a primeira vez que o maestro regeu Brahms, foi nos Estados Unidos, onde ela estava presente. "Isso tem 20 anos. A musicista eletriza o público com a riqueza de sua música, por sua autoconfiança de virtuose. Está entre os maiores violinistas de nosso tempo", elogia Mechetti.

Tinta Fresca

Carlos dos Santos, venceu o Festival Tinta Fresca (destinado ao fomento, divulgação e estímulo a jovens compositores), em 2012, com "Noturno" (inspirada na relação entre os poemas "Manhã de Inverno" de Machado de Assis e "Noturno" de Augusto dos Anjos). Além do júri - composto pelos compositores Marlos Nobre, Ronaldo Miranda e Mário Ficarelli, - tiveram poder de decisão os músicos da Filarmônica de Minas Gerais e seu regente Marcos Arakaki. A premiação ao autor é a encomenda de uma nova composição, a ser estreada pela Filarmônica de Minas Gerais na próxima temporada. O vencedor de 2013 foi o mineiro Leonardo Margutti, de 35 anos.


Serviço

Série Vivace - Nesta terça-feira (12), às 20h30, Grande Teatro do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1537, Centro). Entradas a R$ 60 (Plateia I), R$ 46 (Plateia II) e R$ 30 (Plateia superior). Meia-entrada para estudantes e maiores de 60 anos.