Um discurso de agradecimento rápido e sem rodeios antecede os primeiros beats de “Frank & Tikão”, declarando aberta a celebração. Com uma garrafa de uísque à tiracolo, Fabrício FBC beija sua companheira e brinda o lançamento de “S.C.A.”. A cara fechada do rapper mineiro dá lugar a um sorriso orgulhoso, enquanto os gritos dos amigos encobrem os versos da música que abre seu segundo disco solo. Durante a audição do álbum, dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, a política não era o assunto. Para a crew do rap de BH, reunida naquela noite, no estúdio de tatuagem de Djonga, FBC era o presidente eleito. 

Abreviação da faixa-título “Sexo, Cocaína e Assassinatos”, o disco traz crônicas sobre a realidade dura das periferias e ocupações urbanas de Belo Horizonte e Região Metropolitana. “Eu conto a história de um cara que tinha o sonho de alcançar status, mas seguiu o plano errado e viu que no fim do arco-íris não tinha pote de ouro. É o clichê da favela, esse universo de contradições”, comenta o rimador, que já morou em comunidades no Barreiro e em Santa Luzia, além da ocupação Nelson Mandela. 

De fato, se em “Frank & Tikão” o personagem tem o sonho de ficar rico, em “17 Anos” já anseia por um revólver calibre 38. Enquanto celebra a ascensão em “Superstar” e busca a autoafirmação em “Não Duvide” se depara, mais à frente, com a violência policial, o racismo e as mazelas sociais em “Contradições”. “Nestas crônicas, falo de desenvolvimento social, da falta de estrutura e de acesso a mecanismos de cidadania, de como é precário o sistema educacional, de quais valores estão embutidos na busca pela autoafirmação como pessoa periférica”, afirma.

Vivências

Aos 29 anos, FBC transcende a persona das tramas de “S.C.A.”. As dez faixas refletem sua própria história, marcada por dificuldades e superações. “Já perdi muita coisa e muita gente por causa do crime e das drogas. Vi a cocaína se tornar a maior commodity da América do Sul, vi amigos se transformarem em pessoas corruptas e inacessíveis ao diálogo. Hoje, percebo que foram etapas necessárias para que eu desse valor ao que conquistei com a arte”, desabafa. “Embora retrate um período da minha vida, o disco é atemporal, tá ligado? Porque são coisas que acontecem no Brasil de quem está na margem e vão continuar acontecendo”, completa o rapper, que hoje vive no bairro Concórdia com a mulher e os dois filhos.

Há 15 anos inserido na cultura hip-hop, FBC ganhou notoriedade junto ao coletivo DV Tribo e ao parceiro Djonga, considerado um dos maiores rappers brasileiros da atualidade, com quem roda o país fazendo shows. “O Gustavo (Djonga) é a prova de que a gente deu certo. Hoje, todo mundo enxerga BH como a Compton do Brasil. É o grande celeiro do rap nacional”, sublinha, ressaltando o mérito de triunfar na capital mineira, sem poupar críticas à realidade cultural da cidade. “Eu digo que BH é também um grande cemitério de artistas. Um lugar onde a rotina, a falta de acesso e as ‘panelinhas’ matam o ímpeto artístico e o processo criativo”. 

Bastardo

Foi também desse paralelo fúnebre que surgiu a chamativa capa de “S.C.A.”. Enquanto Djonga brinca com a icônica foto de “Clube da Esquina” (1972) em “Heresia” (2017), FBC parodia a capa do disco “INRI” (1987), da banda de death metal mineira Sarcófago, considerado um clássico do gênero em todo o mundo. “Se o Gustavo representa o jovem negro do subúrbio que conseguiu chegar ao mainstream, eu represento o underground, a rua, a noite, o extremo”, afirma, ressaltando que a ideia de fazer as fotos do Cemitério do Bonfim partiu do produtor Rafael Barra.

“Sou eu, o filho bastardo do caos (sigla de sua assinatura), abraçado com Jesus, o filho bastardo de Deus. Fumando maconha, olhando para o sol e conversando com ele: ‘Olha aqui, pai, o que fizeram com a gente, o que fizeram com os nossos irmãos’”.