Num filme que tem como pano de fundo  a extração de minério em Minas Gerais, é impossível não criar relações com as tragédias ocorridas nas cidades Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, quando barragens se romperam e deixaram um rastro de destruição e morte. 

“Não seria ético da minha parte mudar todo o projeto para abordar histórias que trouxeram um sofrimento tão grande”, explica Afonso Nunes, que começou a escrever o roteiro de “A Cor Branca” em 2011. Nove anos depois, o filme será lançado, justamente em meio a outra tragédia.

A pandemia de coronavírus prejudicou a distribuição comercial do longa-metragem, que, após uma boa recepção em festivais realizados no ano passado, está indo direto para a televisão. Hoje será exibido, às 23h30, na Rede Minas, e, posteriormente, estará disponível em canais no YouTube.

“Meus pensamentos eram bem amplos, com lançamento em tela grande. Como aconteceu com tantos outros filmes bons, não só independentes, tive que buscar outros caminhos”, registra Nunes, pernambucano radicado em Belo Horizonte desde 1992. “A Cor Branca” marca a estreia dele no formato longa.

A  mineração surge à luz de outra discussão  atual: a precarização do trabalho. “Vemos pessoas envolvidas com atividades insalubres, mas que não podem abrir mão  por questão de sobrevivência. São várias pequenas cidades que têm na mineração a principal fonte de geração de emprego”, observa.

Nunes imprime no filme um olhar mais distante, sem julgamentos, sobre a rotina de uma família, cujas vidas passam a ser impactadas pela atividade mineradora. A personagem de Regina Mahia é uma blaster, como são chamados os profissionais que cuidam da dinamitação.

“Por sustentar a todos, ela se sente presa a esta família, sem conseguir sair. Há este embate com o externo, de discussão sobre até que ponto o trabalho está sugando as pessoas e de quem de fato está preso”, assinala o diretor, que fez uma espécie de laboratório no curta-metragem “Desvio”, lançado em 2019.

Enquanto tentava a captação de recursos para “A Cor Branca”, Nunes pôde exercitar a proposta estética no curta, especialmente em relação ao som. “O longa não tem trilha sonora. Os sons entraram de forma natural, criando um outro filme a partir de informações que acontecem fora de campo (visual)”.

A possibilidade de testar os elementos sonoros em “Desvio” gerou no cineasta a confiança necessária para dar um passo mais ousado. “Foi muito importante para que eu chegasse no longa sabendo o que eu queria, como iria fazer e o que poderia exigir do elenco e da equipe de produção”, explica.

Apesar de não ver a hora de logo “entregar o filme” ao público, o realizador não tem outros projetos em vista. Ele está pessimista com o futuro do cinema brasileiro. “Penso em desistir do cinema. É desanimador  ver tantos projetos paralisados. O que está havendo é um genocídio cultural”, lamenta Nunes, ao analisar as políticas – ou a falta delas – para o setor.

Veja o trailer do filme: