Com quatro temas fortes desenvolvidos em seu roteiro, o filme “O Caso Collini”, uma das estreias de hoje nos cinemas, correu um sério risco de tropeçar em algumas delas e comprometer o ritmo e a compreensão da história principal, sobre um misterioso italiano que assassina a sangue frio um influente empresário na Alemanha.

Os elementos, porém, são bem distribuídos ao longo da narrativa, de forma que cada tema é desenvolvido sem grandes problemas. Contribui para isso o fato de o filme escolher determinados personagens para representar estas questões, que podem ser resumidas, cada uma delas, em palavras como ética, vingança, poder e impunidade.

Não é por acaso que “O Caso Collini” tem muitas cenas ambientadas em tribunal, com essas palavras sendo muito caras ao universo judiciário, especialmente quando se propõe quatro ângulos diferentes para uma mesma situação – o do advogado, o do réu, o da família do homem assassinado e o dos acusadores.

Por este viés, o jovem e inseguro advogado que recebe um caso de repercussão nacional se vê implicado com os outros três personagens: o dever de ofício em defender seu cliente, apesar de ser um assassino; a culpa por ir contra a família do empresário, que praticamente o criou; e o embate que o colocará frente a frente com seu mentor.

Todas estas relações têm um pé no passado, o que dá maior sustentação, sendo que estas viagens no tempo não surgem de uma vez só na trama – cada uma delas ganha maior ênfase em partes diferentes do filme, começando pela intimidade com a família do empresário e deixando para o último ato a motivação do crime.

Este encadeamento dos elementos não esconde, porém, algumas lacunas, principalmente sobre o protagonista. O espectador se identifica com o advogado e seus dilemas, mas não enxerga as fissuras que elas provocam nele. O personagem não precisará fazer nada que o leve a sair de seu prumo, agindo como uma esponja.

O desfecho também deixa muito a desejar, lançando um dado novo que, no lugar de clarear o tema maior – sobre a justiça, de como ela é mutável, dependendo da época e de quem está no poder –, acaba confundindo ao explicar a criação de uma determinada lei que, no final da década de 1960, fechou os olhos ao passado alemão de crimes contra a humanidade.