Dilma Rousseff deixou o Palácio da Alvorada em 31 de agosto de 2016. O impeachment sofrido por ela naquela data criou espécie de “levante feminino”, despertando em muitas mulheres o desejo de se proteger ainda mais contra o que foi considerado resultado de misoginia. Essa foi uma das razões, além da questão política, para Anna Muylaert e Lô Politi realizarem o documentário “Alvorada”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas e nas plataformas digitais.

“Dilma nunca colocou na agenda o fato de ser mulher. Ela nunca frisou isso. No momento em que houve a ousadia do impeachment, com aquela virulência, ficou claro que o fato de ela ser mulher foi o fator determinante. Se fosse um homem, eles aguardariam os dois anos”, registra Anna. O filme acompanha as últimas semanas da presidenta em sua residência oficial, mostrando a expectativa em torno do que a diretora chama de “crônica da morte anunciada”.

Foram momentos de tensão entre a equipe e a personagem, mas suficientes para apontar para uma mulher que saiu mais fortalecida do que no dia que passou a ocupar o posto de comandante nacional. “(O filme oferece) um momento de compreensão dos fatos e de quem era aquela mulher, que foi tão xingada e tirada do poder de uma forma violenta. Mesmo para aqueles que não gostam dela, o filme ajudará a entender que tinha uma dignidade ali”, assinala.

Para a diretora de “Que Horas Ela Volta?”, uma das melhores produções da década passada, o documentário chega em momento oportuno. Os cinco anos de espera para o lançamento, no entanto, não foram de caso pensado. “Foi difícil para o filme chegar à forma dele. Não foi de propósito, mas acabou sendo muito positivo. O país está numa situação tão ruim que está sendo positivo lançar o filme agora”, avalia.

Se fosse lançado meses antes, possivelmente “Alvorada” sofreria a mesma artilharia pesada de “Democracia em Vertigem”, da mineira Petra Costa, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2020. “Não sei se haveria um ataque ou um desinteresse, pois muita gente poderia dizer ‘ah, mais um filme sobre impeachment’”, conjectura. Para ela, “Alvorada” pode ser lido como um “trailer do filme que estamos vendo”.

Acompanhar in loco a derrocada da primeira mulher na presidência do Brasil teve dois aspectos para Anna Muylaert. O primeiro foi o “privilégio de assistir a história com seus próprios olhos”. O segundo calou fundo na diretora. “Aquele último dia foi uma tristeza para mim. Desolação para todo mundo. Foi o dia que a democracia saiu do trilho”.

DILMA

A equipe não teve liberdade total no Palácio da Alvorada; alguns encontros políticos não podiam ser mostrados

"Uma mulher pode ser ministra, mas presidente já é um pouco demais"

Como surgiu a ideia de fazer o filme no Palácio da Alvorada, acompanhando os últimos dias de Dilma Rousseff, sem saber se o impeachment seria confirmado no Senado?
Esse click foi da Lô Politi, que já havia trabalhado com Dilma e tinha muito acesso ao Palácio. Ela me chamou para codirigir porque eu também estava acompanhando os movimentos contra o golpe. Eu já conhecia a Dilma desde 2010 e tinha uma certa proximidade. Dei a ideia de não fazer um filme genérico, mas algo fechado naquele tempo e espaço. Marcamos um jantar com a presidenta, apresentamos a ideia e ela topou. Porém, depois que ela viu o que era ter uma equipe de filmagem atrás dela, vieram as dificuldades que estão colocadas no documentário.

Qual era o limite do que podia ser mostrado?
Houve um conflito entre ela e a equipe. Ao longo do tempo, ela foi se afastando e, já no final, a presidenta agia em terceira pessoa. A gente foi ficando mais distante e surgiram outros jornalistas. O filme entra numa estrutura de expectativa para o grande evento final, que é um pouco a crônica da morte anunciada. Antes, o que vemos é uma certa melancolia, sem muitos eventos. O que a gente faz é explorar os espaços do Planalto, que é o espaço do poder. Mostramos as relações de poder naquele momento, com aquela mulher e as reações dela. (Retomando) a questão do limite, isso aconteceu o tempo inteiro, com Dilma negociando com a equipe até onde poderia ir. Ela não queria que a gente filmasse, por exemplo, um encontro político.

A leitura que fazemos do filme é de uma mulher que se manteve forte até o último instante, sem jamais se abater pelos acontecimentos. Você concorda?
O apoio feminino a ela, que só foi acontecer durante o golpe, acabou fortalecendo-a. É uma visão pessoal minha, tá? Embora ela tivesse sendo derrubada, eu via a personalidade dela numa ascensão. Eu a vi mais segura, falando melhor. O apoio feminino teria fortalecido-a como política, separando-a da figura do Lula.

Não deixa de ser curioso, dentro deste aspecto do apoio feminino que você menciona, que os três principais filmes sobre o impeachment partiram de diretoras. Além de “Alvorada”, tivemos ainda “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, e “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa.
Não podemos esquecer que o golpe aconteceu em 2016. E o ano anterior foi crucial para o movimento feminista. Foi um divisor de águas para as mulheres no mundo, gerando muitas ações inclusivas, como no Oscar. Em 2016, fui convidada a integrar o colegiado (da premiação). Eu e mais 600 mulheres. Nos cinco anos seguintes, o Oscar convidou mais mulheres. Entenderam que, sem mulheres no colegiado, as votações jamais mudariam. O mundo passou a ter esta consciência de que nós, mulheres, estávamos nos cargos que não eram as presidências. Com a Dilma, tivemos uma mulher na presidência que foi tirada. Ou seja, existiu aquilo que na Europa eles chamam de teto de cristal – um teto invisível que tem sobre a cabeça de toda mulher, representando o limite que ela pode subir. Se ela passar disso, vai se cortar. Em nosso caso, o que vimos foi que uma mulher pode ser ministra, mas presidente já é um pouco demais, sofrendo uma violência dobrada do que se fosse um homem. Isso se dá em todas as instâncias. Eu nasci em 1964 e, na época, estávamos sob a influência do feminismo dos anos 60, que defendia o direito de a mulher trabalhar. Minha mãe não trabalhava, mas as mães de amigas minhas eram secretárias ou assistentes. Cinquenta anos depois, elas já querem cargos de maior poder. A mulher não está satisfeita em ser a grande mulher atrás do grande homem. Ela está indo para frente do palco, só que ainda não chegamos ao ponto de isso ser algo natural. As que vão para a liderança acabam sofrendo violência. Quando houve o golpe em 2016 foi muito forte para as mulheres. A gente se identificou com a Dilma por este aspecto. Com isso, embora tenha perdido o cargo, ela ficou mais forte.

Por que abrir o filme com a voz do atual presidente declarando seu voto durante o processo de impeachment na Câmara dos Deputados?
A gente tem que lembrar que este cara fez uma homenagem ao torturador da Dilma. E quem é esse torturador? É o homem que bateu no corpo dela. Essa eleição teve um caráter misógino muito claro, porque, ao homenagear o torturador, ele está expressando uma vontade de bater em mulher. Está expressando a vontade de humilhar, de matar até. Mas isso que está acontecendo não é só aqui. A eleição do Trump nos Estados Unidos tem esse mesmo elemento. Estamos vivendo um retrocesso em relação ao gênero, à raça e à classe como forma de reação. Se não fosse o mundo mudar tanto, talvez não tivéssemos este tipo de figura. Nas duas últimas décadas, houve grande mudança no que diz respeito à raça e gênero. 

A que podemos atribuir esta mudança?
À internet. Hoje todo mundo tem acesso ao espaço democrático. Se você abrir um canal X e souber chamar a atenção e ganhar seguidores, passa a ter voz. Isso não existia antes. Quando eu era criança, havia cinco canais, dois jornais e só. Quando lancei o “Durval Discos” em 2002, tive cerca de dez, 15 críticas. Hoje eu tenho 660. Antes, só tínhamos o homem branco no espaço de poder. Hoje não. A história é assim: vai para frente, depois dá um passo atrás até normalizar. Não tem volta. Não vamos voltar a um estágio em que a mulher ou um negro não poderá falar. A tendência humana é da democratização.