A estreia nesta quinta-feira (14), do filme argentino “As Filhas do Fogo”, no Cine Belas Artes, ganha um significado especial, no exato dia em que é lembrado um ano do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, defensora das mulheres e da população LGBTQ – dois temas abordados no longa de Albertina Carri.

A sessão das 19h20 será sucedida por um debate, mediado pela professora e ativista Duda Salabert, com a atriz Mijal Katzowicz, uma das protagonistas do filme. “Conheço a história de Marielle. Quando morreu, estávamos em cartaz na Argentina e dedicamos a sessão a ela”, registra Mijal ao Hoje em Dia.

Na trama, duas mulheres residentes no Ushuaia, ponto mais extremo da América do Sul, extrapolam a sua relação numa espécie de road-movie poliamoroso, agregando novas garotas, para se desprenderem daquilo que consideram uma regra social possessiva, em busca de seu próprio erotismo.

Limites

O ponto polêmico do filme está no fato de exibir várias cenas de sexo explícito entre mulheres. De Fortaleza, onde também participou de debate, na terça, Mijal comenta os limites entre arte e pornografia, ressaltando que o gênero pornográfico geralmente é concebido de forma machista, criado por homens para a excitação deles.

“O que o filme busca dizer é que os corpos não são objetos e sim sujeitos. O gosto sexual é atravessado pela sensação de liberdade, por uma reivindicação de prazeres. É uma viagem de afeto, amor, laços e união”, observa a atriz, que nasceu em Israel e trabalha na Argentina, principalmente com teatro.

Mijal salienta que não foi fácil participar das cenas de intimidade sexual. “Para a maioria de nós, era a primeira vez num filme com essa característica. Mas foi muito bom, pois criamos um coletivo, estabelecendo algumas práticas sexuais entre nós antes de filmar, o que nos deu confiança neste contato entre os corpos”.

Talita Arruda, curadora da Vitrine, que distribui o filme no Brasil, assinala que uma das proposições de “As Filhas do Fogo” é “como construir um pornô que não gere e não venha da violência, que fuja dos estereótipos do gênero, que abra outras possibilidades estéticas, narrativas e políticas”.

Ela cita, como síntese dessa discussão, uma das frases do início do filme: “O problema nunca é a representação dos corpos. O problema é como esses corpos se tornam território e paisagem em frente à câmera”. Segundo Talita, o longa argentino é arte que celebra o gozo em liberdade, mesmo que ainda no âmbito do cinema.

Por todas essas proposições, lançar o trabalho de Albertina é, para Talita, “urgente e essencial”. Distribuir esta “obra da pornografia feminista fortalece a discussão sobre a importância e o papel deste gênero e a representação dos corpos femininos com desejo, tão pouco presente na produção audiovisual”.