chico

Ator vive um funcionário que vive "campo de concentração" na empresa privatizada

O animal presente no título do filme “Homem Onça”, em cartaz nos cinemas, é uma metáfora para o trabalhador brasileiro, tão fundamental na “cadeia alimentar” e em vias de “extinção”, após a eliminação gradual de diversos direitos  e benefícios.

Também representa um pedaço da história do diretor Vinicius Reis, cujo pai viveu o turbilhão das privatizações na década de 1990, em que funcionários foram tratados como presos de um campo de concentração, sofrendo toda sorte de humilhação.

“O filme é resultado da vontade de falar desse momento do país, ao mesmo tempo em quero falar da história do meu pai”, afirma Reis, que, ao ouvir os tristes relatos do pai, há duas décadas, logo percebeu que havia potencial para transformá-los num longa-metragem.

“Comecei a pensar no filme no final de 1996, quando se iniciou  a reestruturação da Vale, onde o meu pai trabalhava. Eu  o encontrava pelo menos duas vezes por semana, tomando contato com a barra pesada que os funcionários estavam passando”, lembra.

Reis compara a situação com uma lista de Schindler às avessas, citando um filme de Steven Spielberg lançado na época, sobre um empresário que salvou milhares de judeus empregando-os em suas fábricas, durante a Segunda Guerra.

“Quando se chegava à empresa, as pessoas tinham perdido a mesa, a sala, sem que as avisassem. Era um terror. Ficavam pensando em qual lista estavam, se iam lhes demitir ou transferir para outro departamento”, assinala o cineasta.

A jornada de Pedro, vivido por Chico Diaz, registra o arco dramático vivenciado pelo pai do diretor, que, doente física  e mentalmente, resolveu romper com tudo, incluindo a família, após a saída da Vale, indo parar numa cidadezinha do interior de São Paulo.

A informação não é nenhum spoiler. “Homem Onça” transcorre em dois tempos distintos, intercalando o “antes” e o “depois” do processo de privatização da mineradora. No filme, o nome da empresa é trocado para Gás Brasil – depois GasBra.

“Perdi o contato com ele. Sabia onde estava e o encontrei algumas vezes. Levei o meu filho para ele conhecer. Virou um alcoólatra e deixou o vitiligo tomar conta do corpo dele. Como recebia os jornais no boteco onde bebia a cachacinha dele, sabia o que eu andava fazendo”, afirma.

Numa das últimas vezes que o encontrou, pouco antes de iniciar a produção, Reis lhe relatou que iria contar a história dele. “Ele respondeu para não mexer com isso, pois era muito triste, uma desgraça só".  O pai faleceria em 2016.

O cineasta observa que não fez um trabalho contra a privatização. “O que faço é propor uma discussão sobre as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros. Não poderiam ter tratado um ser humano daquela forma, bastando não falar inglês para ser descartado”, analisa.

 "Sair da Vale foi um tsunami", afirma Vinicius Reis

A trajetória cinematográfica de Vinicius Reis remete à do francês Robert Guédiguian, de filmes como “A Cidade Está Tranquila” (2000) e “Uma Casa à Beira-Mar” (2017), todos eles pautados pela questão social, especificamente dos sonhos que pautaram os trabalhadores  e que foram esmigalhados nas últimas décadas.

Diretor de “Praça Saens Peña” (2008), “Noite de Reis” (2012) e “Rio em Chamas” (2014), Reis fez em “Homem Onça” o seu trabalho mais visceral. Na época que começou a pensar no filme, há duas décadas, já estava interessado nas obras do diretor britânico Ken Loach, que produziu narrativas esquerdistas como “Eu, Daniel Blake” e “Você Não Estava Aqui”, colocando foco na classe proletária do país.

Outro traço parecido com Guédiguian é a opção de sempre contar com o mesmo elenco. Entre eles, Chico Diaz e a ex-esposa do ator, Silvia Buarque. “Para falar do meu pai, precisava estar com a minha família expandida. Tinha que estar com aqueles com quem mantinha uma ligação forte. Era quase uma trupe de teatro”.

Diaz entrou no projeto na época da produção de “Praça Saens Peña”, em que também foi o protagonista.  “Era a última semana de filmagem e estávamos almoçando quando falei do projeto. Eu só tinha o argumento. Como ele também tem um engajamento,  com atenção ao Brasil, topou fazer”, recorda Vinicius. Silvia interpreta a primeira mulher do personagem central. Coincidentemente, ela e Diaz anunciaram em abril a separação deles.

Reis destaca que, diferentemente da década de 1990, hoje as pessoas estão mais descoladas em relação ao futuro profissional. “Meu pai teve que reinventar a vida dele. Na época, as pessoas tinham um futuro certinho. Sair da Vale foi um tsunami. Hoje já estamos mais preparados. Se acontecer, podemos ser motoristas de Uber”.