Braz Chediak está preocupado. Nos últimos tempos, o cineasta mineiro, nascido em Três Corações, na região Sul, tem recebido várias honrarias. “Brasileiro só homenageia quem já está tirando o time. Por isto, registrei em cartório minha autorização para ser cremado. Assim evito choradeira no meu enterro”, avisa, em tom irônico, antes de embarcar para Belo Horizonte, onde acompanhará hoje, às 19h30, a exibição de “Navalha na Carne”, dirigido por ele, no Cine Humberto Mauro.

Baseado na polêmica peça homônima de Plínio Marcos, o longa-metragem completou 50 anos em 2019, tendo sido feito numa época em que a nação sofria fortemente com a censura. “Resolvi desafiar. O país passava por uma crise de liberdade, de identidade, e eu me identifico com filmes sobre o submundo”, lembra Chediak, ao comentar a história da prostituta Neuza Sueli, que apanhava constantemente do cafetão com quem mora.

Glauce Rocha ficou com o papel da protagonista, após uma longa indecisão sobre quem deveria assumir a personagem. Jece Valadão, ator e produtor do filme, queria outros nomes, como Tônia Carrero, Tereza Rachel ou Norma Bengell, mas os fatos (e a insistência de Chediak) acabaram levando a Glauce, que teve uma das grandes atuações dela no cinema. A peça seria filmada novamente, também por um mineiro, Neville d’Almeida, em 1997.

Dobradinhas

Logo após “Navalha na Carne”, Chediak dirigiu outro trabalho baseado em Plínio Marcos: “Dois Perdidos Numa Noite Suja” (1970). O cineasta só não fez um terceiro por receio. “Ele queria que eu filmasse ‘Abajur Lilás’. Não fiz e expliquei a ele: ‘Plínio, você já está encrencado e a censura está de olho em mim. Se a gente faz essa peça, ela vai ser proibida e aí nos f... de vez!’”, recorda. 

O mineiro teve ainda outro grande parceiro em Nelson Rodrigues, adaptando três de seus textos – “Perdoa-me por me Traíres”, “Bonitinha, mas Ordinária” e “Álbum de Família”. “Fico feliz por ter convivido e sido amigo dos dois maiores dramaturgos de nosso tempo: Nelson e Plínio. Nelson foi uma paixão à primeira leitura. Sempre quis filmá-lo. Gostava dele como pessoa, como gênio que era. O conheci quando era muito jovem. Ele e dona Elza, sua esposa, foram uma família para mim. Almoçava todos os domingos na casa deles, com (os filhos) Joffre e Nelsinho”, registra Chediak, hoje dedicado à escrita. 

O cineasta recorda ainda o escritor Otto Lara Resende, que dizia que ‘mineiro que não vai embora é porque tem defeito’. “Eu fui embora, exerci minha profissão e depois, como todo mineiro, voltei”.

A exibição terá entrada gratuita, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537), dentro do Circuito Cinematográfico de Periferia, promovido pela ONG Contato. Haverá debate após a sessão