A diretora Bel Bechara define o desaparecimento de entes queridos como uma espécie de morte. “A diferença é que você terá a expectativa de uma volta. É uma situação paralisante: a pessoa vive um dilema, pois se seguir em frente poderia estar abandonando a pessoa desaparecida”, registra, ao comentar o tema principal de “Onde Quer que Você Esteja”, primeiro longa de ficção dela e do marido Sandro Serpa, com estreia na próxima semana.
 
O filme é um desdobramento do curta que fizeram em 2003, de mesmo título, com os personagens de Leonardo Medeiros e Debora Duboc protagonizando uma inusitada transformação na sala de espera de um programa de rádio focado em mandar mensagens para pessoas que saíram de casa ou estão desaparecidas. A história se repete no longa, mas agora com outros personagens que vivenciam experiências diferentes.
 
“Criamos vários núcleos e buscamos fazer um filme mais coral, com várias vozes montando uma história”, diz Serpa. Bel destaca que o longa nasceu com o casal, mas “as outras tramas foram tomando forma a partir do momento que trabalhamos com os atores. Com as referências e perspectivas que eles trouxeram, os personagens ganharam brilho”.
 
Humor
Embora seja pautado pelo melodrama, “Onde Quer que Você Esteja” tem momentos divertidos, boa parte deles originários da interpretação de Medeiros, um homem que acorda todos os dias carregando a culpa pelo desaparecimento da esposa. 
 
“O Leonardo sempre trouxe esse lado patético, que é triste e pesado e, ao mesmo tempo, pode chegar a ser engraçado pelo ponto a que as situações chegam”, concorda Bel. “Este é o humor que eu gosto, em que a gente se identifica com o que está vendo, rindo das nossas fragilidades”, completa Serpa.
 
Diretores de “Dalmar e Rosália” e “De Incerta Feita”, Bel e Sandro saíram de BH há 20 anos para trabalhar em São Paulo 
 
O filme (na verdade, o curta) teve inspiração real, a partir de um programa colombiano em que familiares de pessoas sequestradas pelas Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – mandavam mensagens. 
 
“Ficamos sabendo recentemente que ela ainda existe”, assinala Bel, questionando se o papel das rádios realmente perdeu força com a rede virtual.
 
“Com a internet, pudemos agora ouvir a rádio e percebemos até mesmo algumas similaridades de situações, como um familiar cantando parabéns para o sequestrado. O engraçado é que só ouvimos depois que o roteiro estava pronto”, analisa. 
 
Para ela, o mais importante é perceber no programa a reunião de pessoas solitárias. “Um retrato da nossa contemporaneidade é que a solidão pode ser igualmente forte num lugar vazio quanto em outro entupido de gente”.