Há muitos elementos lynchianos em 'O Labirinto', filme de suspense com pitadas de terror que entra em cartaz na última sexta-feira 13 do ano. Do realizador de obras bizarras como 'A Estrada Perdida', 'Cidade dos Sonhos' e a série 'Twin Peaks', há todo um universo de símbolos, cores, objetos, duplos e perversões.
 
O apartamento rosa de uma prostituta albina, recheado de imagens de unicórnio, nos remete imediatamente ao quarto vermelho do anão de 'Twin Peaks'. O ingrediente mais lynchiano é o aspecto temporal, fundamental para fechar o quebra-cabeça em torno de um serial killer que raptou uma menina de 15 anos.
 
O criminoso nos é apresentado com um quê sobrenatural, uma espécie de Jigsaw de 'Jogos Mortais', levando suas vítimas para um labirinto, onde participam de jogos que podem determinar a sobrevivência no lugar. Suas presas são levadas para um mundo de trevas do qual não conseguem se desvencilhar facilmente.
 
O detetive particular que investiga o caso é um personagem clássico, às voltas com a sua última missão – talvez aquela que levará dignidade para uma vida apenas morna. Ele tem uma doença cardíaca que pode lhe provocar a morte a qualquer momento. A sobrevida aumenta a sensação de busca de um fim redentor.
 
Essa caminhada é atravessada por personagens secundários bizarros, pautada por uma ambientação entre a realidade e o imaginário. O diretor Donato Carrisi, que se baseou em sua própria história (publicada no livro 'L’uomo del Labirinto'), potencializa essa atmosfera em cenas banais, como a vista de uma janela ou quando o diretor está dirigindo.
 
A ênfase em tantos elementos, que são apenas decorativos, por assim dizer, sem muita finalidade dramática, surge ao final como uma cortina de fumaça, uma forma de desviar a atenção do espectador. Como somos introduzidos a um universo irreal, muitas perguntas lógicas acabam deixadas de lado em nome deste “vale-tudo”.
 
Apesar de alcançar êxito em seu objetivo, auxiliado pelo bom elenco (Toni Servillo, de 'A Grande Beleza', e Dustin Hoffman), a impressão é que Carrisi passou um pouco da conta ao adicionar tantos disfarces lynchianos, que, no cômputo geral, nada agregam além de estranheza. Um bom exemplo é a sala de pessoas desaparecidas da polícia, visualmente enigmática, mas de valor narrativo nulo.