Qual personagem de “Um Dia de Chuva em Nova York”, uma das principais estreias de hoje nos cinemas, seria o alter ego de Woody Allen? Em outros tempos, a resposta seria facilmente encontrada, bastando observar quem faz a narração em off, destila humor judeu ou tem um jeito meio atrapalhado com as mulheres.

Mesmo quando não está em cena, Allen já imprimiu seus pensamentos em atores que vão de Kenneth Branagh a Jason Biggs. Em seu mais recente filme, porém, o protagonista Gatsby Welles vivido por Thimotée Chamalet só parece emular Allen em sua paixão por Nova York – por seus cenários, é bom que se diga, e não pelas pessoas.

Pelo olhar do estudante bon vivant, que vive às custas da mãe, os novaiorquinos são um entrave a este gosto meramente estético pela Big Apple. Ele não esconde o incômodo ao encontrar ex-colegas e foge o máximo possível do encontro com a mãe controladora. E quem não lhe incomoda passa a ser pertencente aos cenários que tanto enaltece.

Apesar de querer ditar a programação de um final de semana ao lado da namorada Ashleigh (Elle Fanning), as coisas não saem como planejado. O personagem em constante movimento é justamente o de Ashleigh, que, diferentemente de Gatsby, tira da cidade a possibilidade de encontrar diversas pessoas, especialmente do cinema.

Asheligh não tem o mesmo ar intelectualizado e nobre do namorado, mas tudo transcorre favoravelmente para ela, mesmo quando não faz nenhum esforço, com uma simples entrevista com um diretor renomado abrindo várias possibilidades. Talvez por ser uma pessoa comum ela chame tanta a atenção por onde passa.

Apesar de Gatsby carregar a mesma admiração pela megalópole, Allen parece estampar mais a plêiade que cerca a personagem de Elle, que nos remete a “Manhattan”, um dos filmes mais famosos do cineasta e que acaba de completar 40 anos. Tanto lá como aqui estão as trocas de casais, os adultérios, a beleza juvenil e um artista frustrado.

Gatsby e Asheligh se tornam duas partes distintas, na história e no formato no filme, com resultado desigual. O desfecho que dá à garota é equivocado, assim como a relação criada entre Chamalet e Selena Golez não funciona em nenhum momento. Ainda assim, é um filme com assinatura de Allen, o que não é pouco.