Quando chegou a Minas Gerais, em 1929, Helena Antipoff ficou impressionada com o fato de ter tanta criança na rua, passando fome, numa terra muito fértil e produtiva, que em nada se assimilava aos gélidos campos da Rússia, seu país natal. Foi assim que criou cursos para que, especialmente na zona rural, as pessoas tivessem condições de produzir o próprio alimento.
 
“Helena esteve muito à frente do seu tempo e até mesmo deste tempo que estamos vivendo hoje. Ela chegou com uma ideia de respeito ao próximo e de igualdade entre os diferentes”, observa Ana Amélia Arantes, produtora e roteirista do documentário “Entre Mundos”, do realizador mineiro Guilherme Reis, que será exibido hoje, em pré-estreia, às 17h, no Teatro da Assembleia.
 
Helena fez história em Minas, no Brasil e, mais recentemente, o seu trabalho para o aperfeiçoamento da educação ganhou o mundo – em breve um museu dedicado à diáspora russa será aberto, em Moscou, tendo a educadora e psicóloga como grande destaque latino-americano. Ao lado de outros estrangeiros, foi ela quem ajudou a implantar um sistema educacional em Minas. 
 
A produtora registra que Helena trouxe o que havia de mais arrojado sobre o pensamento na área, criando primeiramente a Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico. Mais tarde, dedicou-se, a partir de uma fazenda construída em Ibirité, aos alunos e professores da zona rural, além dos excepcionais, fundando a Sociedade Pestalozzi em Belo Horizonte, hoje espalhada pelo país. 
 
Bagagem
O documentário destaca a vida permeada por contrastes de Helena Antipoff, filha de um general czarista que passa à pobreza quando ocorre, na Rússia, a revolução bolchevique, em 1917. Ela e o marido foram perseguidos e se exilaram na Alemanha. “Helena juntou essa bagagem de experiência de vida à teoria e aplicou no Brasil. Aqui foi um laboratório vivo para ela”, assinala Ana Amélia. 
 
Em Belo Horizonte, a pedagoga criou um formulário para entender o universo cultural das crianças. Sem entender como tantos garotos abandonados permaneciam na rua, de madrugada, para pegar os jornais na gráfica logo cedo, ela fundou a Casa do Pequeno Jornaleiro. “No lugar de dormirem na rua, eles passaram a ter um abrigo, que era gerido por eles próprios”, afirma a roteirista.
 
Helena também estabeleceu uma metodologia de ensino própria para excepcionais, termo criado por ela para substituir palavras pejorativas como “retardado” ou “anormal”. No início dos anos 30, adquiriu uma casa no bairro Serra, com a ajuda de vários amigos das classes intelectual e política, e fundou a Sociedade Pestalozzi. 
 
“Helena nunca tomou partido, nunca se posicionou politicamente. Por isso conseguiu atravessar todos os governos, apesar de ter sofrido preconceito durante a era Vargas, sendo chamada de comunista. Ela nunca teve apego material. Sempre que construía uma instituição, entregava para o Estado gerir. Estava mais interessada na transformação social do que no acúmulo de riqueza”, analisa Ana Amélia.
 
SERVIÇO: 
Exibição de “Entre Mundos” – Hoje, às 17h, no Teatro da Assembleia (Rua Rodrigues Caldas, 30). Entrada franca.