Um dos mais antigos integrantes do Porta dos Fundos, Antonio Tabet confessa fazer parte da turma que não gostou nadinha do primeiro filme produzido pelo grupo de humor, “Contrato Vitalício”, lançado há cinco anos. “Eu também achei uma m... Posso ser considerado um dos públicos que tiveram resistência ao longa”, afirma.

Ele faz questão de dizer que “Peçanha Contra o Animal”, disponível desde sexta-feira na plataforma de streaming Amazon, segue um caminho completamente novo, especialmente em sua proposta de humor. “É diferente de tudo que o Porta costuma fazer. Acredito que seja o primeiro besteirol nosso”, compara Tabet.

Protagonista do filme, no papel de um policial jocosamente corrupto, violento e que “se acha” o grande nome da corporação, o humorista observa que seu objetivo foi “fazer o pessoal rir com aquela personagem que é a mais popular do Porta porque é divertido, aceito por todos os lados desse país meio polarizado que a gente vive”.

O segundo longa da turma não esconde as suas referências nas comédias amalucadas americanas. Tabet cita, em especial, a trilogia “Corra que a Polícia Vem Aí”, estrelada por um atrapalhado detetive (Leslie Nielsen) e carregada de sátira ao universo policial.

O ator lembra que os fãs já vinham pedindo um conteúdo mais robusto do Peçanha, após uma trajetória ascendente no programa. “Ele foi surgindo, sendo construído aos poucos. A primeira vez que ele aparece no Porta, em ‘Suborno’, não está com identificação ou uma voz característica, porque não era a nossa ideia ter uma personagem assim”, explica.

“Como sempre fazia os policiais, que vinham numa forma de crítica, falei para mantermos um nomezinho. Era como um easter egg, botando sempre o mesmo policial quando a cena pedia. Depois começou a virar algo recorrente e as pessoas passaram a amar, tornando uma demanda quase obrigatória nossa (fazer o filme)”, diz.

Na coletiva ocorrida na semana passada, o ator Pedro Benevides provocou risos ao falar dos bastidores das filmagens, com a “encarnação” de Tabet como o policial linha-dura. “Quando começamos a gravar, ele vira o Peçanha mesmo, enquadrando todo mundo para ficar tudo certinho. Se acendo um cigarro, já tomo um esporro na hora”.

O diretor Vinicius Videla assinala que a principal diferença entre o filme e os esquetes do Porta dos Fundos é o tempo de produção. “A gente está acostumado com esquetes do canal que têm três, quatro páginas. Em geral, fazemos num ritmo muito rápido, assim como a pós-produção, não durando nem duas semanas até a exibição”. 

Para o realizador, o longa possibilitou “pensar mais nas referências, de decupar, embora o tom da piada seja o mesmo nos dois”. Videla salienta que, além do público cativo do Porta, a vontade dos produtores é alcançar novos públicos que gostam do gênero paródia. “Ele mistura besteirol com filme de serial killer, sendo uma diversão para todo mundo”, afirma.

Personagem surgiu antes da criação do grupo de humor

Peçanha surgiu, na verdade, bem antes da formação do Porta dos Fundos, em 2011. Ele era um dos protagonistas do “CSI: Nova Iguaçu”, esquete dos canais de humor “Kibe Loco” e “Anões em Chamas” que parodiava umas das principais séries policiais da época, focada em investigadores forenses.

“Foi a primeira vez do Peçanha, ainda sem ter esse nome. Ele e o assistente, feito pelo Gustavo Chagas, iam às cenas de crime, onde sempre estava um cadáver vivido pelo Totoro, e chegavam a conclusões óbvias como um buraco de bala que tinha sido provocado por um tiro”, recorda Antonio Tabet.

Enquanto os investigadores forenses americanos eram cheios de recursos, valendo-se da ciência, os colegas brasileiros do esquete se pautavam pelo mais puro achismo de resultados nulos. “Chegamos a ir algumas vezes a Nova Iguaçu para filmar e o pessoal de lá se amarrava”, recorda.

Com o sucesso do esquete, uma boate chegou a pedir para ser citada nas histórias de Peçanha. “Na verdade, não sei por que filmávamos lá. Podia ser em qualquer lugar, como a casa do Totoro. A cidade acabou sendo a nossa queridinha e nada mais natural que o primeiro especial do Peçanha fosse lá”, registra.

Tabet observa que o sucesso do “sargento-tenente-major” diz muito sobre o Brasil, especialmente o atual. “Ele é incompetente, com um pé na corrupção e vários vícios horrorosos, como ser machista, racista e homofóbico. Ao mesmo tempo, entende que isso é errado e tenta consertar pelos meios dele”, analisa.

Para o comediante, o policial mostra o pior do melhor brasileiro, “um cara péssimo, mas que tenta melhorar de uma maneira completamente torta”. Por isso ele consegue agradar, segundo Tabet, tanto os que enxergam a crítica como os que veem um mimimi quando o assunto é igualdade de direitos. 

O ator ressalta que, no Brasil de hoje, há muitos Peçanhas, “alguns melhores, outros piores, uns mais queridos, outros muito escrotos. Estão por aí e só aumentando. Se você for para a zona Oeste do Rio de Janeiro, então, tem um em cada esquina. E se for para Brasília, tem alguns em cargos de poder”.

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