Estreia desta quinta-feira (4) nos cinemas, “Duas Rainhas” passaria com louvor no teste de Bechdel. Criado em 1985, pela cartunista norte-americana Alison Bechdel, o teste é hoje muito utilizado para avaliar se um filme é preconceituoso no tratamento às mulheres.

No longa de Josie Rourke (é raro mulheres dirigirem filmes históricos desta envergadura), os três quesitos do teste são amplamente atendidos ao se acompanhar a trajetória de Mary Stuart, rainha da Escócia, e Elizabeth, monarca da Inglaterra, no século XVI.

Segundo o teste, é preciso haver, pelo menos, duas mulheres em cena (1) que dialogam (2) sobre assuntos que não sejam os homens (3). Apesar de o encontro entre as rainhas só acontecer numa única cena, a trama ressalta o papel feminino na História.

Independentes, revelando grande força para superar o machismo e a manipulação dos súditos, as rainhas do filme traduzem um movimento iniciado nos anos 60, nos EUA, para que as mulheres, assim como minorias, entrassem na pauta de historiadores. 

Direitos civis

“Esse revisionismo tem início com o movimento dos direitos civis, em que se passou a produzir trabalhos que tentam romper discursos dominantes que tendem a perpetuar segregações ao longo da história”, observa Adriana Romeiro, professora de História da UFMG.

Ela registra que, no Brasil, essa nova abordagem, que abre espaços também aos negros, gays, pobres, ciganos e velhos, chegou na década de 1980, dando origem a uma “narrativa das mais ricas, devolvendo e revendo o lugar da mulher ao longo da história”.

Adriana cita como exemplo a biografia da ex-escrava Chica da Silva, revista por Júnia Ferreira Furtado no livro “Chica da Silva e o Contratador de Diamantes” (Companhia das Letras). Nela, sai de cena a mulata mostrada como objeto sexual e feiticeira.

Mais recentemente também veio à tona a história de Luzia Pinta, escrava vítima da Inquisição em Sabará no século 19. Ela foi queimada viva após ser condenada por bruxaria. “São casos emblemáticos para entender o universo das ex-escravas no Brasil”, avalia.

História de gênero

O professor e acadêmico Caio Boschi, que lança amanhã, às 19h30, na Academia Mineira de Letras, o livro “Por que Estudar História?” (editora PUC Minas), assinala que este tipo de abordagem é chamada de “história de gênero”, em franco desenvolvimento nos últimos 20 anos.

"Temos uma ampliação deste leque, com o Brasil produzindo muito e com qualidade, segundo a avaliação internacional”, destaca Boschi. Entre os títulos lançados estão “Rosa Egipcíaca, uma Santa Africana no Brasil” (Bertrand), de Luiz Mott, e “A Mulher na História do Brasil” (Contexto), de Mary del Priore.

Boschi sublinha que a História não é uma verdade única ou definitiva. “Não há uma versão certa e outra errada. Existem versões, interpretações, tudo no plural. A História está sempre reconsiderando de acordo com o contexto, com a carência de cada um de nós”.

Para ele, o papel da História está justamente em auxiliar o entendimento da realidade e a poder viver melhor em sociedade. “Hoje as pessoas estão muito atarantadas com a falta de explicações para o que está acontecendo. A História nos oferece um entendimento mais nítido”, analisa o acadêmico.