Perpera é um pajé da aldeia dos Pater Suruí, em Rondônia. Na verdade, um “ex-pajé”, como deixa claro o título do documentário assinado por Luiz Bolognesi, com estreia amanhã nos cinemas. A forma de tratamento é muito representativa da situação do índio, que pertencia a um grupo isolado até que, em 1969, os brancos entraram em contato e mudaram tudo. 
 
Ao focar em Perpera, o filme adentra outro universo: o da ação de missionários evangélicos que eliminam os rituais indígenas e, em especial, a figura espiritual representada pelos pajés. “Iria fazer um documentário sobre pajés de diversas tribos, mas quando eu o conheci, apaixonei-me pela história de um índio que precisou virar evangélico para poder ser aceito pelos demais”, registra. 
 
O cineasta lembra da primeira imagem que teve de Perpera, vestido com roupas sociais. Quando indagou a razão, o indígena explicou que era o zelador da igreja e que não podia ser mais o pajé, porque a igreja considerava demoníaco, e dessa maneira os fiéis – boa parte da aldeia – deixariam de conversar com ele. “Trabalhar como zelador e receber por isso é uma forma de impor certa humilhação”, diz Bolognesi.
 
Controle
“Os índios têm muito medo, não só do Diabo. Faz parte da cultura deles. Com isso, os missionários criam um jogo pesado, tendo controle até mesmo do acesso à saúde, como a distribuição de remédios deles e, em alguns casos, até do cartão Bolsa-Família”, salienta Bolognesi, roteirista de filmes importantes como “Bicho de Sete Cabeças” e diretor da premiada animação “Uma História de Amor e Fúria”.
 
Mas o realizador não busca vilanizar os missionários e o filme está longe de ganhar um caráter de denúncia, como outros documentários sobre o tema. “Meu olhar é o da poesia. Não quis fazer uma câmera urgente, correndo de um lado para outro”, salienta Bolognesi, que tratou os índios da aldeia como codiretores, respeitando os costumes locais .
<CW0>Para não interferir no dia a dia deles, o diretor recriou cenas para a montagem do filme. Foi assim em um momento capital, quando Perpera é chamado para ajudar uma mulher que está hospitalizada após ter sido picada por cobra. “A família consentiu em refazermos a cena e levamos os dois para um outro hospital, já que o primeiro não havia deixado”, lembra o diretor, que vê na sequência um resquício de resistência cultural, com os índios convocando o pajé quando a medicina não traz o resultado esperado.