É o personagem de Pablo Echarri quem narra a própria história em “Happy Hour”, coprodução entre Brasil e Argentina que chegará às telas de cinema na próxima quinta-feira. Professor universitário portenho, residente no Rio de Janeiro, ele carrega aqueles elementos que transformaram em sucesso dramas cômicos como “A Filha da Noiva”, “Abraço Partido” e “O Crítico”, realizados no país vizinho.

O Horácio de “Happy Hour” é pincelado com um jeito meio infantil, na maneira como resolve os problemas que surgem à sua frente. Como em “O Crítico”, quando o personagem central se molda pelos filmes românticos que vê, o professor ganha uma relação com o universo dos super-heróis, quase infalível – e, ao ser transportado para as relações amorosas, vamos ter o perfeito retrato de um certo hedonismo machista.

Assediado pelas mulheres, principalmente ao segurar um perigoso bandido que escala prédios, chamado de Homem-Aranha, quer usufruir das possibilidades que aparecem, mas com a concordância da esposa interpretada por Letícia Sabatella. É aí que surge um dos problemas narrativos do filme: a personagem dela é forte demais, fruto de uma atuação sofisticada e envolvente da atriz brasileira.

Ainda que o final revele uma pegadinha que faz todas as nossas certezas desabarem, o protagonismo de Horácio perde força muito rapidamente, criando uma grande lacuna até o roteiro retomar o prumo, a partir da discussão sobre os papéis de homem e mulher na sociedade atual. Essa perda inicial se deve principalmente ao desequilíbrio nas interpretações de Echarri e Letícia – a primeira mais verbal e a segunda, mais intimista.

Vamos perceber que a narração é apenas um artifício para desviar os nossos olhos, assim como a reflexão que Horácio tece sobre ser “estrangeiro”. A sensação de não pertencimento, talvez, esteja mais no fato de não conhecer a própria esposa. Boas ideias que sofrem com a mão pesada do diretor Eduardo Albergaria para encontrar o tom certo da história e também por “invalidar” a lógica machista do protagonista muito antes.