Não é a primeira vez que vemos um filme que aborda um fato histórico e político relevante pelos olhos de uma criança, tirando o peso dos trágicos acontecimentos. Diferentemente do argentino ”Kamchatka” e do brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, dois exemplos que também se situam na dura década de 1970, “Irmãos à Italiana” opta por embaralhar ainda mais os papéis, a ponto de não sabermos de qual lado os pais do protagonista estão.

A omissão dessa informação põe o espectador no mesmo patamar de Valerio, um garoto que presencia o pai sendo alvejado assim que sai de casa. A narrativa não esconde a época (o ano de 1976) e o cenário (a capital Roma), o que nos permite presumir o que está por trás da tentativa de assassinato, mas ainda ficamos à deriva sobre o trabalho de Alfonso, nos restando apenas a imaginação fértil do garoto. O que está em questão é a transformação mítica da figura paterna.

Mas não se trata de um típico filme de passagem, de introdução ao universo adulto. A imaginação não deixa de ser um elemento constante na narrativa, presente até a inconclusiva cena final. Tudo se dá praticamente na relação com Alfonso. Não por acaso, o título original é “Padrenosso” (Pai Nosso, em tradução literal). As ações de Valerio se dão em função dele, mesmo durante a longa ausência do pai na primeira meia hora, em busca de respostas que ainda não sabe formular.

Essa imagem impermanente do pai se rompe na segunda parte, quando a família sai de Roma e segue para uma cidade litorânea. Ele se torna mais presente e humano, mas o lúdico não sai de cena; apenas se desloca para a relação de Valerio com um rapaz mais velho, quando crescem as dúvidas sobre a sua função. Dentro daquele local idílico , seria ele o amigo imaginário que viria para se despedir e pôr o personagem rumo à forçada idade adulta?

Nessa teia imaginária em que se prende o trio, cria-se a expectativa do corte abrupto, de um pouso forçado à realidade que nunca se oferece efetivamente. Embora mais frágil, a figura paterna não se desconstrói. Embora mais compreensível, a questão política não pende para nenhum lado. É muito sintomático que venha à mente, nos derradeiros momentos, um relato oral contado por uma criança. O fato de ele nos conduzir reflete o ponto onde o filme quer chegar.