“O sonho de baixinho sempre foi esse”, diverte-se Mauricio de Sousa, no mezanino de um hotel de Belo Horizonte, poucas horas antes de acompanhar, na noite de ontem, a pré-estreia de “Laços”, o primeiro filme em live-action da Turma da Mônica. O cartunista, criador de um império que hoje domina cerca de 80% do mercado editorial de gibis, não está se referindo à cria mais famosa: a “baixinha” e “dentuça” – como Cebolinha gosta de zombar – Mônica. Mas dele mesmo, após adicionar dois tapetes de ginástica sobre a poltrona, para ficar mais confortável.

Aos 83 anos, a energia e o entusiasmo que exibiu ao percorrer, há exatamente seis décadas, cidades do interior paulista para distribuir as primeiras tirinhas, depois de ser tachado de comunista pelo jornal “Folha de S.Paulo”, ainda estão muito presentes em Mauricio. Planos não faltam, adianta nesta entrevista ao Hoje em Dia. E é bem provável que continuem infalíveis, como mostra a trajetória do cartunista, à frente de um império presente em 30 países.

“Hoje estamos fazendo uma brincadeira que é universal. Abrimos um estúdio no Japão recentemente para fazer a mesma coisa. No YouTube, o desenho ‘Mônica Toy’ está sendo visto no mundo inteiro, já com 12 bilhões de views. Foi uma coisa inesperada para mim e deu certo também. Agora, chegou a hora do filme ao vivo, que eu tinha um pouco de receio de fazer, porque achava que não iria encontrar atores mirins que pudessem representar a Turma da Mônica”, observa.

Adultos

Na visita a BH, Mauricio esteve acompanhado de Sidney Gusman, jornalista especialista em quadrinhos que foi o responsável pela entrada da Turma da Mônica no universo adulto, a partir do lançamento de graphic novels de sucesso em 2012. 

Foi neste momento que surgiu “Laços”, criado pela dupla mineira Lu e Vitor Cafaggi, base do filme dirigido por Daniel Rezende que estreará nesta quinta-feira em mais de 600 salas do país. 

“Fala para ele, Mauricio, o que você me disse quando recebeu os desenhos de ‘Laços’”, pontua o editor de projetos especiais da Mauricio de Sousa Produções. “Disse que aquele material daria um filme”, responde o pai de mais de 400 personagens, como Horácio, Piteco, Astronauta, Penadinho, Chico Bento e Papa-Capim, cada um deles pertencente a um universo que vai muito além da rua Limoeiro, cenário principal das aventuras do quarteto formado por Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali.

Os Cafaggi assinaram duas continuações, “Lições” e “Lembranças”. Gusman revela que não para de pedir novas parcerias à dupla. E com Mauricio estimulado com o que viu na telona – já assistiu o filme cinco vezes, contando com a exibição belo-horizontina –, “Lições” não demorará a se materializar em carne e osso. E com a mesmíssima equipe. 

“Quando estava nascendo a ideia de fazer um filme, o Daniel soube, furou a fila e disse que queria fazer. Quando me disseram, eu exultei: ‘Opa! O Daniel que foi indicado ao Oscar (de melhor montagem por ‘Cidade de Deus’)?! Quero esse cara no negócio”.

Ainda está fresco na memória o dia em que você criou a primeira tirinha, com o Bidu e o Franjinha?

Apesar de fazer um bocado de tempo, 60 anos, eu me lembro sim, principalmente porque naquela época não tínhamos xerox e eu tinha que ficar repetindo figura por figura. Você colocava um papel transparente sobre o desenho e ia copiando. Eu trabalhava como repórter policial, mas a minha ideia era ser desenhista, criar os meus personagens. Quando tive uma oportunidade, dada pelo conselho de redação da “Folha de S.Paulo”, joguei uma tira de alto a baixo na página, para marcar espaço. E perguntei se eles publicariam e se pagariam por aqueles desenhos, como faziam com os americanos. Eles disseram que sim. Então disse que estava me demitindo como repórter policial para me tornar quadrinista, se me permitissem. A partir dali comecei a fazer tiras. Mudei o formato, tirando do vertical e colocando na horizontal, como eram as tiras americanas, e pus na mesma proporção. Eu já queria fazer e redistribuir para outros jornais, para fazer o processo que os americanos usavam para dominar o mundo das tirinhas de jornal. Enquanto eu fui repórter, imaginando que poderia fazer isso, pedi ao pessoal da redação para me darem todo o material que os americanos mandavam como marketing, orientação e a explicação de como eram as tirinhas. Fiquei sabendo até como era a cobrança. Fiz praticamente uma pós-graduação sobre o assunto criação, produção e distribuição de histórias em quadrinhos. Fiquei fazendo isso durante quase quatro anos. Assim, quando fiz a minha primeira tira e foi aceita, a minha cabeça já tinha tudo para poder replicar. 

Esta preocupação profissional acabou resultando na demissão da “Folha de S.Paulo” e o rótulo de comunista, não é verdade?

Fiz a primeira tira do Bidu. Depois do Cebolinha e do Piteco. E mandava para os jornais. Começando pelos mais próximos e depois indo para os mais longínquos. Em quatro anos, eu já estava em 700 jornais do país. Nada me segurava mais. A não ser a situação política. Naquela época, pré-ditadura, a situação estava muito braba no Brasil inteirinho. Eu tinha criado a associação de desenhistas para brigar por nosso espaço, para que os jornais e revistas não usassem só material estrangeiro. Aí me chamaram no jornal e me falaram para eu não continuar fazendo isso, que era coisa de comunista. Respondi que não, que era uma coisa de classe, que tínhamos bons desenhistas e precisávamos de uma entrada, de uma cota. “Ou para ou não trabalha mais aqui”, avisaram. Assim, fui solenemente demitido da “Folha” por ser tachado de comunista. Naquele tempo, eles fizeram uma lista negra e cada pessoa que fizesse uma coisa meio esquisita não poderia mais trabalhar em nenhum veículo de São Paulo.

E o que você fez para continuar publicando as tirinhas?

Despedido e proibido de trabalhar, a coisa ficou feia. Voltei para a cidade onde morava antes, Mogi das Cruzes, onde tinha pai, mãe, avó, madrinha, pessoas que poderiam me emprestar dinheiro para as emergências. E fiquei lá, sem desistir da ideia. Eu tinha clichês (placas de metal usadas na impressão), que eu ganhava do pessoal da “Folha”, e comecei a viajar pelas cidades próximas de Mogi, visitando redações de jornais pequenos, como semanários e jornais de igreja, levando uma mala pesada de clichês. Eu viajava até um raio de 100 quilômetros, pois não tinha dinheiro para ir mais longe. Então eu pegava esse dinheirinho contado para ir até Taubaté, Sorocaba e São José dos Campos, e ia fazendo contato com os donos de jornais. Com a entrada de um pouco de dinheiro, fiz um folder para mandar a jornais mais longínquos, oferecendo as três histórias que eu tinha. Era assim: “compre um e leve dois”, “compre três e pague por dois”, “preço de ocasião”, “história brasileira, tão boa quanto as americanas”, variando de acordo com a linha de cada jornal. Aí fui crescendo, crescendo, e quando a “Folha” viu que eu estava publicando num jornal direitista do Rio de Janeiro, aí perceberam que o Mauricio não era comunista e resolveram me trazer para fazer a “Folhinha de S.Paulo”, que era o suplemento infantil.

São 60 anos de personagens que só aumentam em popularidade, ganhando novos públicos e linhas de produtos. Como você explica o fato de sustentar por tanto tempo esse grupo de personagens no interesse do leitor brasileiro? Lembrando que até mesmo a Disney, nos gibis, acabou sucumbindo neste mercado.

Primeiro porque eu gosto. Segundo, porque eu vivo disso. Eu e mais uma porção de gente. E, melhor ainda, os leitores gostam. Gostam e pedem mais, pedem mais. A cada palestra que eu faço, não só no Brasil como no Japão, eu sempre pergunto no início: “Quem aprendeu a ler com a Turma da Mônica na infância?”. Noventa e oito por cento da plateia levanta a mão. Isso é o importante, a nossa arma secreta. O nosso plano infalível, como diria o Cebolinha. Está dando certo porque nós criamos tudo com muito carinho, com cuidado, pensando no público leitor, antes de qualquer coisa. E não ficamos parados quanto à tecnologia e novas plataformas. E, com muita força atualmente, passamos a investir nos livros. Meu desenho é vender o mesmo tanto de livros quanto de quadrinhos. Esse será o meu próximo objetivo de vida. Quero vender livros, sem deixar de vender quadrinhos. E, principalmente em relação às perspectivas deste filme, também vou me meter no cinema cada vez mais.