Quando o diretor e ator Rafael Gomes estreou a peça “Música para Cortar os Pulsos”, há dez anos, a realidade do país era bem diferente. De lá para cá, a tecnologia passou a ditar mais fortemente os rumos de nossa rotina e a maneira de perceber um leque diversificado de relações retrocedeu várias casas no tabuleiro social.

"Há dez anos, a sensação de que a marcha social brasileira avançava para um certo progressismo, com uma liberdade maior de costumes, era muito premente”, registra Gomes, que imprimiu na adaptação cinematográfica, em cartaz nos cinemas drive-ins e disponível em plataformas digitais, o que ele chama de aspecto “combativo”.

Rebatizado de “Música para Morrer de Amor”, o filme deixou de ser apenas um “sintoma de um determinado tempo” para elevar um pouco o tom no discurso sobre a realidade, apontando para “regressões de direitos, de costumes e de orientações, sem se limitar à sexualidade”, destaca o realizador.

Apesar deste dedo em riste, a produção tem gosto de comédia romântica, bebendo claramente da fonte do gênero a partir de jovens na faixa entre 20 e 30 anos que sofrem seus “tombos” afetivos. A música presente no título não é por acaso. Canções de diversos estilos ajudam a refletir sobre os altos e baixos amorosos.

“Não acho de forma nenhuma um demérito a associação com essa linhagem de comédias românticas, norte-americanas ou inglesas. Eles fazem muito bem, às vezes com maior profundidade, às vezes com menor, essa abordagem da vida interior dos personagens em seu sentido sentimental. Produzimos poucos filmes sobre isso”, analisa.

Gomes destaca que obras sobres assuntos urgentes e importantes não podem deixar de serem feitas, mas é preciso abrir espaço para trabalhos que exibam um apreço para a construção da vida afetiva, apresentando uma espécie de mapa da geografia sentimental.

O cineasta busca um público que, assim como ocorreu com a peça, não é muito focalizado: o pós-adolescente. “Eu passei anos e anos com a peça em cartaz, acompanhando a carência que o público tinha para ver sua vida sentimental refletida na dramaturgia”, registra. 

A tecnologia ganha protagonismo no filme, com a visualização das constantes trocas de mensagens e visitas às redes sociais. “É um tema forte, sem dúvida. Foi a coisa que mais se transformou em relação à peça. Claro que já existia celular em 2010, até mesmo a maioria das redes sociais que a gente conhece hoje, mas o smartphone se popularizou demais e isso pautou a dinâmica das relações de uma forma brutal, avassaladora”, compara.

A trilha sonora também sofreu modificações, devido principalmente à negociação de direitos autorais das músicas. “Uma coisa permaneceu: a vontade se ser muito amplo, indo da ópera a Leandro & Leonardo, de tango a Cazuza, unificados pela ideia de que são intensos ou transbordantes para morrer de amor ou, como diz a expressão popular, de cortar os pulsos”.