Histórias focadas em famílias disfuncionais há muitas, especialmente na forma de comédia dramática. “Cadê Você, Bernadette?”, uma das estreias de hoje nos cinemas, também faz esta dobradinha entre humor e drama, mas não se trata aqui de uma família que pode ser enquadrada como disfuncional.

Assista ao trailer:

Em primeiro lugar, não há conflito. A falta dele é que chama a atenção, já que marido (Bill Cudrup) e mulher (Cate Blanchett) só parecem ligados pela filha e pela instituição “família”. E sabemos que eles passam por sérios problemas no meio do filme, quando há uma abrupta mudança de perspectiva em torno de Bernadette.

Ela é aparentemente excêntrica e teria pleno controle sobre o que faz, mas o mundo fictício que constrói em torno de si revela uma pessoa à beira de um colapso, que se podou para cuidar da filha doente. A maneira como exibe esta mudança é um dos trunfos do filme de Richard Linklater.

O público se identifica com o jeito dominador e irônico de Bernadette, que desmascara a falsa beleza das causas sociais e das startups. Ela fala e se movimenta muito, criando uma grande cortina de fumaça para a questão central: o descompasso da vida a dois, explicitado na narração em off da filha.

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Cadê Você, Bernadette? estreia hoje nos cinemas

A reviravolta revela uma mulher como tantas outras, que se vê obrigada a abdicar das próprias aspirações para ser “do lar”, fato que inconscientemente nunca aceitou. A secretária virtual Majula passa a ser a sua confidente, com o mundo high-tech se desmoronando assim como a casa em que moram.

A casa é muita simbólica do que há de real naquela família, soçobrando sem que ninguém se importe. Assim seria uma relação também. O fato de Bernadette ter sido uma arquiteta de renome traz uma forte mensagem sobre o papel da mulher, sobre constantes situações que são projetadas e abortadas.

O descompasso se evidencia quando notamos que o marido se mantém estanque, inabalável ao longo do tempo. E é muito interessante observar no que a filha se tornou, nada que aponte para alguém mentalmente doente. Ao contrário, ela soube extrair o melhor dos dois.

Não se trata, portanto, de perdas irreparáveis, mas sim sobre momentos em que é preciso fugir – da rotina, especialmente – para alcançar algo mais importante: a necessidade de se reinventar. Não por acaso, quando todos os membros saem de casa em direção a algo inédito, é que enxergamos o que há de verdadeiro naquela família.