A cena de botas empilhadas após uma execução nos remete imediatamente aos campos de concentração nazistas, associação que é fortalecida ao final de “Na Ventania”, em cartaz nos cinemas, que define como “holocausto soviético” a deportação de milhões de pessoas para a Sibéria, durante o governo de Josef Stalin.


Na mesma época em que os soviéticos enfrentavam a ofensiva expansionista da Alemanha, na década de 40, famílias inteiras foram separadas para evitar ideias separatistas em suas repúblicas, principalmente na Ucrânia, na Lituânia, na Letônia e na Estônia – origem desse filme dirigido por Martti Helde a partir de uma história real.


O realizador recorre às cartas deixadas por Erna ao marido e que lhes serviram de motivação para continuar vivendo, na esperança de revê-lo. O casal foi separado e posto em trens e caminhões com direção à Sibéria, um dos lugares mais gélidos do planeta, experimentando condições tão difíceis quanto os prisioneiros nazistas.


Martti dá ênfase às tristes e descritivas palavras de Erna ao adotar, em quase todo o filme, um artifício em que os personagens estão parados dentro do plano, no meio de alguma ação, enquanto a câmera passeia por eles. A ideia possivelmente tem a ver com uma das frases da protagonista, que fala de uma prisão à céu aberto.


Representado pelo movimento contínuo da câmera, o tempo avança implacavelmente, mas as pessoas surgem estanques, com uma noção particular de duração – a vida sempre parece estar por um fio e a repetição maquinal do trabalho domina o cenário frio dos campos. A fotografia em preto e branco reforça essa sensação de inércia.


Quanto mais Erna tenta amenizar a dor em suas cartas, constantemente falado de um encontro futuro, é impossível não se comover ou se angustiar com os acontecimentos que envolvem a personagem, em que um simples pedaço de pão pode ser sinônimo de alegria, com o “passeio” da câmera aumentando ainda mais essa dor.


“Na Ventania” fala de vidas que são transformadas para sempre de acordo com a vontade de governantes sádicos. E é um convite a conhecer um outro lado do dirigente que, ainda hoje, é visto por muitos como um herói ao derrotar o exército de Adolf Hitler, transfigurado aqui (sem nunca ter seu nome citado) no próprio Stalin.