O que mais impressiona em “O Homem Invisível”, em cartaz a partir de hoje nas salas de exibição, é a forma como se vale do terror para criar um dos filmes mais feministas da história do cinema. Estão lá, ancoradas em elementos conhecidos do gênero, situações ilustrativas de opressão feminina: o poder econômico e social, o sentimento de posse, a ignorância da mulher gerada pela extrema emotividade e a diminuição de valor devido à capacidade de gerar vida.

Em nenhum momento, a produção baseada na clássica história de H. G. Wells levanta ostensivamente a bandeira feminista. Quem não se atentar para as questões bem costuradas nas entrelinhas já será brindado com um excelente filme de horror, que exibe todos os ingredientes típicos: a atmosfera sobrenatural, o vilão com traumas do passado que não fica nada a dever a Jason Voorhees e Michael Meyers e a gradual ascensão da protagonista, de vítima à heroína.

O diretor e roteirista australiano Leigh Whannell, cocriador de “Jogos Mortais”, misturou detalhes que estão no livro de Wells e também no filme realizado em 1933 - que também tinha um pé no suspense e foi o responsável por incluir uma personagem feminina - e inverteu, com muita sensibilidade, o principal plot. No caso, a descoberta por um cientista do poder da invisibilidade e a aplicação em si próprio da substância, mostrando todos os efeitos que traz à sua vida.

Nada sabemos sobre o processo de descoberta e quem é o cientista. Aliás, só vemos o rosto dele nos minutos finais, o que corrobora para a discussão feminista, além de ser um ótimo artifício narrativo, com o terror psicológico servindo a ambas leituras. O filme começa a partir da fuga de Cecilia (Elizabeth Moss, que abordou tema semelhante na série “The Handmaid’s Tale”), que aparentemente vivia um relacionamento abusivo.

A palavra “aparência” tem muito valor aqui, seja como elemento de suspense (o que é real ou não?), seja como um julgamento que é constantemente imputado às mulheres, de que estariam fantasiando ou exagerando determinado problema. Assim, a invisibilidade do cientista serve muito bem à proposta, como uma forma de proteção e intangibilidade masculina, reforçadas nos diversos pilares da sociedade – a ciência, a lei e a família. 

O grande mérito do filme de Whannell está expresso no próprio título: a invisibilidade que as mulheres sofreram ao longo dos séculos, em torno de seus direitos e até mesmo no cinema, é, de certa maneira, corrigida, dando total voz a Cecilia. E o final reforça esta ideia, quando uma resolução só acontece quando ela ouve os seus instintos. É a partir desta riqueza de interpretações que uma obra de terror sobrevive para além dos muitos sustos.