Como Charles Bronson após deixar os faroestes, Liam Neeson vem se especializando num tipo de filme de gênero policial, protagonizado por um homem comum que, sozinho e sem poder contar com as instituições tradicionais, enfrenta todo um sistema corrupto. “Legado Explosivo”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, é mais um exemplar desta “especialidade” do ator irlandês.

O princípio destes filmes é praticamente o mesmo: o personagem principal sofre uma perda (especialmente familiar) e, na ausência de resposta das forças policiais e políticas, resolve agir por conta própria. Na década de 1970, nas produções de “Desejo de Matar”, com Bronson, este olhar era muito simbólico de uma certa descrença, decorrente do fracasso na Guerra do Vietnã e das mentiras do governo Nixon.

O estilo “Exército de um homem só” nunca deixou de ser produzido, sempre dialogando com o seu tempo. Vide “Rambo –A Missão”, com Sylvester Stallone, “Comando para Matar”, de Arnold Schwarzenegger, ambos nos anos 80 e retratos da era Ronald Reagan, em que a crise não estava propriamente nos valores da sociedade americana, mas na relação com o estrangeiro, na figura dos imigrantes.

O que caracteriza os papéis de Neeson é a retomada do homem comum que, ao buscar fazer a opção pelo caminho certo, é passado para trás. O Tom Carter de “Legado Explosivo” não é exatamente um cara normal, já que é procurado por roubar vários bancos. Mas a justificativa de seus atos no passado e o fato de querer se redimir por amor levam a este entendimento, expresso no título original como “Honest Thief” (ladrão honesto).

Verossimilhança
Parece uma contradição ou um exagero, mas a história consegue tornar esta ideia verossímil. Muito em função de Neeson, um ator que consegue, com um olhar ou maneira de falar, emprestar várias camadas ao personagem. E também pela construção do roteiro, todo ele calcado no conflito ladrão que quer ficar bem com a sua consciência e um sistema policial que só finge defender os interesses da sociedade.

Vários momentos de diálogo caminham neste sentido, colocando-se sempre em dúvida a atitude do ex-ladrão em se livrar do fruto de seus roubos, ao devolver todo dinheiro, por acreditar no amor e querer iniciar uma relação de forma mais transparente possível. Os demais personagens ridicularizam, mas a intenção ganha força à medida que a narrativa avança justamente por recuperar a essência do que é amor.