Ana Luiza Azevedo já estava com a passagem comprada para vir a Belo Horizonte e apresentar “Aos Olhos de Ernesto”, dentro da programação do festival Imagem dos  Povos, quando a pandemia obrigou o país a iniciar um longo confinamento em casa.

A sessão aconteceu, no MIS Santa Tereza, e a cineasta gaúcho soube que o filme teve excelente recepção de público. Mas ficou aquele gostinho de  dívida com  BH. “Ainda estou com a passagem. Quero voltar à cidade, para falar dele”, registra Ana Luiza.

Os cinemas ainda não foram reabertos  e a primeira chance de  ver o longa será mesmo nas plataformas digitais, com lançamento nesta quinta (17). É um trabalho que fala sobre aprender a se reinventar a partir das limitações. Bem a propósito do momento atual.

Ernesto é um uruguaio exilado no Brasil que, aos 70 anos, começa a perder a visão. “Quando você perde um sentido, aguça os outros.  A impossibilidade da visão foi o que intensificou a troca com uma jovem, que lhe apresenta  um outro universo”, assinala.

Ela ressalta que é preciso aprender a lidar com as substituições, citando o mundo pós-Covid, em que as pessoas estão  descobrindo outras formas de conviver por meio das telas. No caso de Ernesto, ele é levado para a rua, palco de performances de poesia (os  chamados slams).

“O filme traz essa juventude que tem como uma das grandes bandeiras a ocupação das ruas.  Não é um texto de Mario Benedetti, cujo ‘Porque Cantamos’ é lido por Ernesto, mas um poema contra racismo e homofobia, questões que não podemos fugir hoje”, analisa Ana.

O roteiro é inspirado na  história de um fotógrafo italiano residente em Porto Alegre.  A gradual cegueira dele o  impediu de manter as duas coisas que lhe eram mais caras: a troca de cartas com a irmã e o fato de viver sozinho.

“Criei um personagem  uruguaio  que provavelmente veio para cá naquele momento das diásporas latino-americanas provocadas pelas ditaduras e que aqui ficaram. O que me permitiu trabalhar esse sentimento do exilado, que troca de país muitas vezes não por vontade própria”, destaca.

E por que o Uruguai? Para a realizadora, os hermanos têm uma personalidade especial, principalmente na forma como lidam com a cultura. “Há um humor um pouco cáustico e, ao mesmo tempo, uma certa melancolia, uma característica  que está presente em todas as  expressões artísticas deles”.

Para o papel de Ernesto, Ana Luiza convidou Jorge Bolani, o maior ator em atividade no país vizinho. “A gente construiu junto essa língua falada por ele no filme.  Eu queria um personagem de língua espanhola que acha que está falando português, mas não está”, diverte-se.