Em cartaz, “Rattle and Hum”. Num mês de 1984, Andreas Kisser e Otavio Juliano foram um dos espectadores que passaram por uma antiga sala de cinema de São Paulo, o Gazeta, para assistir ao documentário sobre o grupo irlandês U2. Kisser ainda não era o guitarrista que ganharia os fãs de heavy metal com o Sepultura. E Otavio seria, três décadas depois, um diretor de documentários.

Esse “encontro” de desconhecidos serviu para selar a parceria da banda mineira com o realizador paulista em torno de “Sepultura Endurance”, filme comemorativo dos 30 anos de um dos mais importantes nomes do rock pesado. “Foi como se tivesse fechado um ciclo iniciado em 1984, com Rattle and Hum tornando-se uma referência para nós do que pretendíamos no documentário”, observa Otavio.

O filme ganhará exibição especial nesta quarta-feira (14), às 20h30, no Pátio Savassi. Na quinta-feira (15) será o lançamento oficial. “Nunca haverá uma banda como o Sepultura. Ele foi inovador e único”, salienta o diretor, que acompanhou o quarteto por sete anos, em turnês por Europa, Ásia e América do Norte. Otavio destaca que o Sepultura quebrou todas as barreiras, como um grupo de origem brasileira que se tornou lendário numa época que não havia YouTube.

Bastidores
“O que me interessava no filme era mostrar como alcançaram esse sucesso. É surpreendente o número de fãs que eles têm no exterior. Que banda, sozinha no palco, levaria 20 mil pessoas a um estádio na Indonésia? Do policial do aeroporto ao porteiro do hotel, todo mundo conhecia a banda”, lembra Otavio, que também teve acesso a bastidores, presenciando momentos difíceis, como a saída do baterista Jean Dolabella, em 2011.

“Era como uma mosca na parede. Havia instantes que eles esqueciam que tinha alguém filmando. Na estrada, antes da saída do Jean, eles conversavam sobre a dureza que é viajar e passar tanto tempo junto”, observa Otavio. Outros ex-integrantes e fundadores, os irmãos Max e Iggor Cavalera, não quiseram dar entrevista. “Lamentei, pois os membros atuais, como Paulo (Xisto, baixista) e Andreas têm muito respeito e carinho por eles”.

Santa Tereza
A ausência de falas de Max e Igor representou um desafio para o cineasta. “Tinha que seguir em frente. E foi importante porque conseguimos entrevistas com gente de bandas grandes, como Metallica, Megadeth, Motorhead... grupos que influenciaram o Sepultura e que hoje têm um profundo respeito pela banda brasileira”, afirma Otavio, que também pôde recorrer a um arquivo de milhares de fotos e reportagens de Andreas e Paulo.

E como se trata de filme comemorativo, Santa Tereza, o bairro de Belo Horizonte onde tudo começou, não poderia faltar à festa. A produção aproveitou um show em BH para levar o grupo a um passeio pela região e a um emocionante encontro com João Eduardo de Faria Filho, fundador da Cogumelo Records, a primeira gravadora a apostar no som do Sepultura, lançando o primeiro LP “Morbid Visions”.

Uma história de 30 anos de sucesso e algumas perdas

“Sepultura Endurance” não é apenas um filme para fãs da banda ou do heavy metal. E muito menos um amontoado de videoclipes que parecem esconder o que está por trás de todo grande sucesso musical: pessoas. Uma palavra chave dita por vários entrevistados é “química”, elemento que está presente em tudo o que fazemos, na profissão e na intimidade. E, nesses dois campos, dentro e fora do palco, o Sepultura tinha de sobra.

A trajetória da banda é uma evidência disso: jovens do bairro Santa Tereza, curtidores de rock pesado, que montaram uma banda “podre” no início e que foi sendo lapidada pelo desejo e união de seus integrantes. Mal comparando, os quatro cabeludos eram como o quarteto de Liverpool, fortemente agarrados à origens e à possibilidade de fazer um som diferente. Foi assim que venceram os preconceitos e conseguiram ser ouvidos no exterior.

O dono da gravadora RoadRunner faz um retrato interessante, numa época em que não havia internet e celular, a contratação de uma banda brasileira de heavy metal se transformou num marco. Quando você ouve um dos entrevistados, o experiente guitarrista Scott Ian, do Anthrax, dizendo que uma música como “Refuse/Resist” seria a trilha sonora perfeita para o fim do mundo, você pode ter certeza que é um grande elogio.

O filme evidencia a necessidade de levar a sonoridade e a realidade brasileiras para os discos e também as dificuldades de se permanecer no topo, preservando o quinto elemento (a banda, como destaca Lars Ulrich, do Metallica). Como no caso dos Beatles, as longas turnês e a esposa de um dos integrantes foram corroendo a química. Uma das cenas marcantes é quando acompanhamos o pedido do baterista Jean Dolabella (substituto de Iggor) para sair.

Fraturas que os tornam mais próximos de nós, mortais, do que celebridades. Essa é uma das qualidades do filme, presente já nos créditos iniciais, quando se lê uma frase da escritora Mary Shelley sobre a mutabilidade da vida.

paulo xisto sepultura

Entrevista Paulo Xisto

Você e o Andreas Kisser ficaram muito próximos à produção do documentário, colaborando principalmente com material de arquivo. Como foi esse processo?
Nossa função foi mais no sentido de ajudar com materiais e achar as pessoas certas, ajudando nos contatos com bandas que nos acompanham desde a fundação. É difícil colocar 33 anos de história num filme de 1h30, mas eu e o Andreas tínhamos coisas muito antigas, coisas que eu mesmo não lembrava 

A comemoração em filme também permitiu um mergulho pelas origens do Sepultura, ao apresentarem o bairro de Santa Tereza, onde tudo começou.
O filme tem algumas surpresas inusitadas. Aproveitamos uma tour pelo Brasil e um tempo disponível para mostrar ao Otavio como eram os nossos ensaios, até para ajudá-lo a clarear as ideias na hora de captar e editar as imagens. Passamos pelo bairro e fomos à sede da Cogumelo, no centro de BH, mostrando os locais onde as coisas aconteceram.

Fazer um documentário comemorativo certamente os leva a pensar um pouco nessa trajetória, de como tudo aconteceu até chegarem aqui.
Na verdade, a gente era um bando de moleques, fazendo o que gostava, que era tocar música. Depois a coisa ficou séria, nada mais do que isso. Crescemos e aprendemos, trabalhando para chegar onde chegamos.

E não houve censura a nada, com vocês dando livre acesso à câmera de Otavio Juliano, não é verdade?
Sim, quando ele aceitou fazer o documentário não podíamos alijá-lo dos riscos. Ele acabou realmente fazendo parte da banda, tornando-se nosso amigo, um quinto elemento. E ajudou bastante na convivência diária o fato de ela ser leve, solta, sem forçar a barra para nada. Tudo o que você vê no filme é real, é o que saiu na hora.

Ficaram chateados com o fato de os irmãos Cavalera, fundadores da banda, não quererem dar entrevista?
Eles fazem parte da história. Não tem como tirá-los. Ninguém é obrigado a participar. Mas aí chamamos alguns nomes que foram ícones de infância, hoje nossos amigos. Vieram ajudar a dar uma explicação sobre o que é a vida de música, o dia a dia, as turnês. Não é uma coisa tão fácil como se imagina.

Você gosta de documentários musicais?
Gosto, quando não é meu. Não gosto de ficar me vendo (risos)