A cantora Alcione fez a diretora Angela Zoé abrir o peito. No sentido literal. Durante a produção de um documentário sobre um dos grandes ícones da MPB, a cineasta carioca teve um problema coronariano e imediatamente passou por uma cirurgia, pouco antes de a Marrom ser homenageada pela Mocidade Independente na Marquês de Sapucaí, em 2017.

“Depois disso brincava que ela tinha aberto o meu coração. Brincadeiras à parte, o filme ficou um ano parado por causa desta cirurgia. Foi bem complicado. Durante este período, ela não deixou de me ligar para saber como eu estava. Ela é uma fofa. Ganhei uma amiga”, registra Angela.

Em “O Samba é Primo do Jazz”, que será lançado amanhã nas plataformas de streaming, vamos encontrar uma artista que exibe um profundo conhecimento musical e um contagiante lado divertido, sem falar no cuidado com a família. Aos 73 anos, não perde a oportunidade em flertar com portugueses durante uma turnê, sem se importar com a câmera.

Curiosamente, Angela não era uma grande fã da Marrom. “Foi uma descoberta para mim. Eu não tenho preconceito, mas antes eu não me identificava. Acho que até por isso o filme saiu tão legal, pelo fato de eu não vestir o personagem com a roupa que ele deveria colocar, me fez descobrir algumas facetas da Alcione”, assinala.

Apesar de alguns comentários sobre o filme ressaltaram a vitória de uma pessoa negra e nordestina, a cineasta ressalta que este não foi o seu foco ao fazer o longa. “Ela é a nossa diva, a maior cantora do país. Eu quis fazer a história de uma pessoa que, a partir do momento que fui convivendo com ela, percebi que tinha uma coisa dentro dela que era o jazz”.

O longa-metragem nasceu de uma série sob encomenda, feita para a TV Mirante, do Maranhão. “Ela iria fazer 70 anos e me pediram este especial. Foram três episódios, em que conto a história dela desde a infância. Quando me dei conta da potencialidade dela, quis fazer um filme que, além da biografia, teria a musicalidade como dispositivo”.

A cineasta teve como ponto de partida uma investigação de como aquele “vozeirão” ganhou expressividade musical. Foi quando ela se deparou com uma gravação em que o cantor Roberto Menescal estava, na década de 1970, em busca de uma cantora de samba. Jair Rodrigues sugeriu a Alcione, ressalvando que não era propriamente que o gênero não era o forte dela.

“Ele falou que tinha uma morena bacana que trabalhava na noite com ele, mas que não cantava samba. Ela tocava piston e cantava jazz. Foi aí que achei o caminho para o filme, sobre a escolha profissional dela em cantar samba, logo se encantando (com a escola de samba) Mangueira”, registra Angela, que já documentou as vida de Henfil e Betinho.

Uma curiosidade é o fato de as únicas entrevistadas, fora a biografada, serem as três irmãs dela. “Fiz isso porque é a realidade cotidiana da Alcione. São um clã, as quatro cavaleiras do Apocalipse. Mexeu com uma, mexeu com todas. Elas ainda vivem juntas e eu quis mostrar isso”, explica Angela, que agora prepara um filme sobre o pintor Di Cavalcanti.