Quando lançou um de seus primeiros livros, na metade do século passado, Lygia Fagundes Telles ouviu de um grupo de escritores que ela era “muito bonita e tinha belas pernas” para querer enveredar pelo universo literário.

A afirmação machista só encheu Lygia de coragem para continuar escrevendo. Esta é uma das facetas exploradas no documentário “Lygia, uma Escritora Brasileira”, de Helio Goldsztejn, em cartaz os cinemas.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira, Lygia não era feminista, mas obras como “Ciranda de Pedra” e “As Meninas” assumem o ponto de vista feminino – não um, mas vários, mostrando a pluralidade de vozes das mulheres.

No filme, feito para a TV Cultura, a escritora observa que estas múltiplas figuras femininas refletem as mulheres que povoaram o seu universo, algumas símbolos da luta contra a hipocrisia da sociedade, principalmente a paulistana.

Lygia começou a escrever ficção numa época em que as mulheres só podiam ser poetisas, vocação se mostrou logo cedo, aos 15 anos, quando publicou o seu primeiro livro, “Porões e Sobrados”, lançado em 1938.

Calcado em depoimentos, alguns deles entrevistas da própria Lygia para a TV, o filme desenha uma mulher forte, que superou a morte do primeiro filho, Godofredo, investindo na escrita e conquistando a admiração de seus colegas.

Quadrado
O filme também reforça a atualidade da obra, reverenciada por blogueiros especialistas em literatura (Isabella Lubrano é uma delas) e ativistas LGBT, como a atriz Daniela Garcia, que encontrou em Lygia um importante alicerce para suas escolhas.O problema do filme é a tentativa de fazer um retrato completo, passando de forma ligeira por algumas questões, além de seu formato quadrado e verborrágico, próprio da televisão.

O que falta, principalmente, é a paixão e a devoção de Lygia expressa na tela, tratada com certa frieza pelo uso excessivo de talking heads – alguns depoimentos, como os de Jô Soares, poderiam ter ficado na sala de montagem.

A escritor foi casada com Paulo Emílio Salles Gomes, um apaixonado defensor do cinema brasileiro. Uma relação que fez cada um cruzar a fronteira e investir na literatura, no caso de Salles Gomes, e no cinema, experimentado por Lygia. Amor incondicional, que extrapola a esfera íntima e pode ser atribuído à cultura brasileira, mas que não está presente no documentário.

Ainda assim, ele se torna importante por ser um raro e tardio filme–um dos primeiros–sobre uma escritora brasileira.