A segunda parte de “Um Lugar Silencioso”, um dos filmes mais aguardados do ano, já em cartaz nos cinemas, é uma história-ponte, cuja função é preparar o terreno para um terceiro segmento, que, pelas informações já divulgadas, estaria com lançamento previsto para 2023.

Assim como nas trilogias de “O Senhor dos Anéis” e “Matrix”, a continuação de um dos mais bem-sucedidos filmes de terror dos últimos dez anos, tanto em termos de bilheteria como de recepção da crítica, só abre caminho para alguns pontos de interrogação que ficaram na obra original.

No caso de “Um Lugar Silencioso”, a brecha (o que, para muitos, era a sua grande virtude) estava no caráter distópico, sem apresentar outra possibilidade para uma família interiorana do que a simples sobrevivência após um ataque de alienígenas que se guiam pelos sons.

A esta falta de perspectivas positivas se somava, no longa-metragem de 2018, uma narrativa construída igualmente na ausência de diálogos, o que conferia uma atmosfera ainda mais assustadora, em que a simples pisada numa folha seca poderia representar a perda de uma vida.

Os dois elementos se desfazem no segundo capítulo. Na contramão do que foi feito antes, a novidade está na esperança de um porto seguro, onde os humanos possam viver em paz, numa espécie de éden atualizado. Além disso, surgem outros ingredientes que corroboram para diminuir a força do primeiro.

Como se fosse num filme de super-heróis, Evelyn Abbott (Emily Blunt, esposa do diretor John Krasinki) e seus três filhos acabam por descobrir um outro ponto fraco dos  extraterrestres. A perda de um dos personagens principais no trabalho anterior é recompensada, simbolicamente trazendo a configuração da família original.

Os diálogos ocorrem com muita constância, a partir de certos subterfúgios, para que se lancem mais questões à trama. Um deles é a dúvida sobre os humanos sobreviventes, que podem ser tão cruéis quanto os alienígenas, criando ligações com outra vertente do horror: os zumbis.

As sugestões são substituídas, com maior frequência, pela investida mais gráfica. Quanto mais saem de seu refúgio, mais mortes – recentes e oriundos “daquele dia”  – surgem no caminho dos Abbott. O dilema principal reside em encarar o perigo e buscar novas possibilidades ou ficar isolado, com o risco constante de serem encontrados.

Como no segundo filme de “O Senhor dos Anéis”, a narrativa se divide em três frentes, sendo duas delas as mais importantes. Em determinado instante, somos apresentados a três situações climáticas ao mesmo tempo. Esse  recurso não significa, porém, um resultado melhor na distribuição dos sustos.

O esforço do filme é entregar a história em situação x, como deixa para o segmento final. O mal não foi erradicado. Pelo contrário. A sensação é de que os Abbott tomaram para si a missão de salvar o mundo. O que era apenas localizado, em que a preocupação primeira é  livrar a própria pele, ganha um caráter mais heróico, se assim podemos dizer.