Boa parte do trecho final de “Minha Vida em Marte”, que terá pré-estreia nos dias 25 e 26, acontece em Nova York, repetindo uma opção presente em praticamente todas as comédias recentes do cinema nacional: o exterior como último estágio da ascensão da classe média ao paraíso do consumo a partir do empreendedorismo.
 
Primo bastante próximo de “De Pernas pro Ar”, a continuação de “Os Homens são de Marte... E é pra Lá que Eu Vou” (2014) também exibe uma mulher independente e bonita que, em contraposição ao bom momento profissional, enfrenta crises amorosas. Nos dois casos, a Big Apple se torna o ápice deste conflito.
 
Cenário também de “Minha Mãe é uma Peça 2” e “Até que a Sorte nos Separe 2”, os Estados Unidos aparecem como espécie de artifício dramatúrgico para, numa sequência, ampliar os quiprocós do filme original. Fonte de piadas geográficas e linguísticas, a mudança de ares também é representativa de uma realidade social do país.
 
Antes, o Tio Sam surgia no cinema brasileiro como uma fuga, um recomeço motivado pela falta de oportunidades no Brasil, colocando como protagonistas emigrantes. Agora, ele significa uma pausa, um recomeço que diz mais respeito às questões afetivas e profissionais. Em “Minha Vida em Marte”, assinado por Susana Garcia, é uma mudança de chave.
 
É para lá que Fernanda vai, ao lado do amigo e sócio Aníbal, para recuperar as energias após a separação. Eles visitam galerias, parques e, claro, fazem compras. Ações que apontam para um estado de liberdade que se contrapõe à ideia de comprometimento presente na atividade da dupla, à frente de uma produtora de cerimônias de casamento.
 
Deslocamento
No primeiro filme, dirigido por Marcus Baldini, as piadas giravam em torno do fato de Fernanda, veterana em promover festas de matrimônio, estar solteira aos 40 anos. Na segunda parte, frustrada com a relação, ela vê o outro lado da felicidade estampada nos casamentos. É interessante observar que, para fugir da tristeza, Fernanda vive em deslocamento constante.
 
Sempre com Aníbal a tiracolo, ela passa por academia de cross fit, hidroginástica e várias viagens, dentro e fora do país. Ou seja, toda uma sorte de opções que se tornaram constantes na agenda da classe média brasileira nos últimos 20 anos. Registro que se cola a esta nova mulher que não tem mais no casamento o ideal de vida.
 
Uma embalagem que funciona bem principalmente por conta da boa química da dupla Mônica Martelli e Paulo Gustavo, com diálogos sempre divertidos, apostando na insegurança de Fernanda e na franqueza de Aníbal. A atuação deles vai em direção ao mote do filme, que, na ausência de um grande amor, dá grande valor à amizade.