Mesmo conquistando um destaque nacional, Flávio Renegado não deixa o Alto Vera Cruz, bairro onde viveu praticamente toda sua vida. Ano passado, comprou um apartamento para sua mãe, dona Regina, na região Noroeste da capital, mas não vendeu a casinha onde moraram por mais de 20 anos. O espaço foi transformado na sede da ONG Associação Arebeldia, que ele vem conduzindo desde 2009, ao lado de parceiros. 

Onde antes o rapper construiu suas músicas, planejou seus discos e dividiu o carinho da família, agora será um espaço dedicado à formação profissional e inserção no mercado de trabalho para jovens da comunidade. “Desde quando comecei a cantar rap, com 13 anos, ficava dentro desse barraco pensando em mudar a minha vida. Hoje posso dar continuidade àquele sonho nesse espaço, dar oportunidade a outros jovens, dar continuidade a uma semente que brotou”, diz o rapper de 34 anos.

Militância

Quando a palavra liderança aparece na conversa, Renegado prefere substitui-la por outra: militância. “Durante muito tempo da minha vida, eu fiz rap acreditando que eu representava a comunidade. Mas teve um dia em que compreendi que sou uma pedra na construção disso tudo. Foi quando uma tiazinha, no ponto de ônibus, veio falar comigo: ‘você é o moleque que eu vi dia desses na TV? Pô, continua’. Você é líder não porque você se autodenomina líder, é quando as pessoas te reconhecem como líder”. 

Este mês, a ONG terá uma ação bem importante, o 1º Festival de Inverno de Vilas e Favelas. Realizado entre os dias 19 e 27, o evento terá oficinas, palestras, shows, saraus e workshops nas mais diversas áreas, realizadas na antiga casa de Renegado e em outros espaços do Alto Vera Cruz. Um dos objetivos é unificar mais a comunidade, que sofre com a rivalidade de traficantes. 

Novo trabalho

Transformar a casa em ONG é só um dos vários planos na carreira do artista, que acaba de lançar o quinto disco, “Outono Selvagem”, com distribuição da Som Livre. Produzido pelo próprio Renegado, o disco foi gravado em dois famosos estúdios do Rio de Janeiro, tendo Kassin como engenheiro de áudio e participações especiais de Samuel Rosa, Diogo Nogueira, Sérgio Pererê, Alexandre Carlo e Joana Rochael. 

O álbum é uma continuação do conceito trabalhado no EP “Relatos de um Conflito Particular” (2015). “Tive vontade de falar dos sete pecados capitais no EP, depois de falar também sobre as virtudes. Acabou que fiz uma grande imersão dentro de mim mesmo, na ponta da caneta estão sentimentos que tenho bem fortes dentro de mim”, diz o artista. “Vivendo um processo de autoentendimento, você começa a entender o mundo que está lá fora”. 
O interessante é que ele consegue ter bom diálogo com uma grande gravadora, mesmo sendo um rapper “sem papas na língua”. Renegado é famoso por levar discurso político para o palco – tanto que causou muito debate nas redes sociais ano passado, quando cantou no “Criança Esperança”. “Claro que às vezes pago meus pedágios por ter postura. Mas minha mãe me educou para ser homem, não no sentido machista da palavra, mas no sentido honroso”.