Ao mirar a jornada singular dos andarilhos contemporâneos – pessoas que vivem sem as perspectivas ditas tradicionais da sociedade e que escolheram a estrada como habitat – dois jovens fotógrafos belo-horizontinos acabaram criando trabalhos que, mesmo completamente independentes um do outro, não deixam de estabelecer um diálogo, por focarem, a partir da imagem, temas como a solidão, o preconceito e as escolhas pessoais.
 
O primeiro deles é a exposição “Paisagem Ambulante”, assinada por Daniel Moreira, e que pode, a partir de amanhã, ser vista pelo público no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, no Centro. “É curioso como a estrada é um refúgio, como a natureza transforma os objetos e, de alguma forma, se apropria das pessoas. É uma troca e absorção constante”, comenta ele. Aos 36 anos, Moreira frisa que “Paisagem Ambulante” pode ser “lida” como um convite à reflexão sobre a solidão e sobre o ambiente em que os andarilhos estão inseridos.
 
“A discussão é sobre a relação do que é socialmente aceito, da escolha pessoal de cada um. Pessoas que decidiram pela estrada optaram por não contrair uma dívida vitalícia, como comprar uma casa ou pagar o seguro de um carro, e sim por um caminho alternativo”.
 
Chamado natural
 
“Com 16 anos peguei a minha primeira estrada: de BH a Carrancas, de carona. Não sei porque Carrancas, poderia ter sido qualquer cidade com cachoeira. Só queria viajar, um sentimento interno que, naquele primeiro momento, não dava para explicar. Acho que é um chamado natural. Em algum momento, creio que todos desejam isso, é instintivo, orgânico e fantástico”, comenta, por sua vez, Rafael Lage, 34 anos.
 
Ao tomar gosto pela estrada, foi natural fazer, dela, campo de trabalho e fonte inspiração. Foi assim, aliás, que nasceu o documentário “Malucos de Estrada II – Cultura de BR”, financiado por 2.072 pessoas que, juntas, doaram mais de R$ 65 mil.
 
“Viajamos por 19 estados, nos quatro cantos do país, em mais de cinco anos. Em menos de um mês da publicação do documentário, tivemos mais de 45 mil visualizações, sem grandes veículos de divulgação”, celebra.
 
“Malucos de Estrada II” pode ser visto no YouTube. “Ele impacta. É o único sobre o tema, não tem como ser diferente. Mas é também apenas o fragmento de uma obra, à medida que os outros filmes forem publicados, o trabalho deve ganhar uma outra dimensão”, acredita ele.
 
Assista logo abaixo, na íntegra, o filme de Rafael Lage