Para quem ficou quatro anos preso, na época da ditadura, passar a pandemia confinado em casa é um luxo. Se ainda resta um ponto de interrogação nesta frase do teólogo e escritor mineiro Frei Betto, basta ver a produção literária dele nos últimos meses. Além de “Diário de Quarentena – 90 Dias em Fragmentos Evocativos”, que será lançado hoje, às 18h, em transmissão ao vivo pelo Projeto Sempre um Papo, ele já tem outras publicações prontas para ganhar as livrarias.

“Para mim, foi muito produtivo. Fiz o ‘Diário de Quarentena’, um livro infantil, outro mais teológico e estou encaminhando um de ficção, mas este ainda vai levar uns quatro, cinco anos”, registra o autor, que mora num convento de frades dominicanos em São Paulo. “Quarentena”, no entanto, será o único deles a ser lançado neste ano – em março, ele já tinha apresentado “O Diabo na Corte – Leitura Crítica do Brasil Atual”, sobre o governo Jair Bolsonaro.

“Diário” é o 69º livro deste mineiro de 76 anos, nascido em Belo Horizonte e que começou a escrever em 1971, com “Cartas da Prisão”. Na nova obra, lançada pela Rocco, Frei Betto faz uma relação com a sua estreia na literatura. “Foi o psicanalista Hélio Pelegrino que fez cair a minha ficha: escrever o relato daquilo que se está vivendo é muito terapêutico. Como eu tinha tido essa experiência na prisão, veio-me claramente que este diário da quarentena poderia ter esse sentido também”.

Ele salienta que não se trata de um diário convencional, em que se registra cada etapa do dia, desde o café da manhã até a hora de dormir. “São mais ideias, pequenos contos e, como está no subtítulo, fragmentos de evocações. É um pouco de tudo, como se fosse um daqueles almanaques de minha infância. Um livro também muito voltado à introspecção, sobre o processo da pandemia, a partir de coisas que eu fui lendo”, assinala.

Solidariedade
Frei Betto fala de uma doença viral de resultados previsíveis e não levada a sério no Brasil pelos governantes. “Tem muita reflexão sobre como esse deu essa indiferença do governo brasileiro e outros do exterior e as consequências disso. Mas num viés mais poético, em que as pessoas possam ter um diálogo com a sua interioridade. Se, por um lado, você percebe governos que são xenófobos, há, por outro, muita solidariedade da classe média para baixo”, analisa.

Em seus textos, Frei Betto enxerga uma ponta de esperança nas ações de pessoas que se dispõem a fazer compras de supermercado para idosos ou que ajudam carregando a maca em hospitais. “Esta rede de solidariedade foi a grande lição que a doença está nos deixando”, salienta. Além de casos reais, Frei Betto cria histórias de ficção que exemplificam esse tipo de amparo, como um senhor que vai à casa daqueles que perderam familiares para se lamentar junto a eles.