Quem respira o Carnaval de rua de BH sabe que uma de suas baterias mais preciosas está no Unidos do Samba Queixinho. Mas, para além da qualidade técnica, o bloco surgido em 2009 se insere, política e socialmente, na história do reflorescimento da folia na capital. Prestes a completar uma década, o Queixinho coleciona vivências e visões, sempre traduzidas por seu fundador, Gustavo Caetano. Em entrevista ao Hoje em Dia, o carnavalesco e agitador cultural falou sobre a história do bloco, as perspectivas históricas do evento em BH e seus desafios futuros.

O Queixinho foi um dos primeiros blocos que surgiram no chamado reflorescimento do Carnaval de BH. A contestação política também motivou a criação do bloco? Nosso desfile sempre foi politicamente engajado. Mas, por acontecer na Savassi, nos classificaram estupidamente como “um bando de playboys”. A ideia de sair da Praça da Liberdade, desde 2011, foi para questionar o governador da época, Aécio Neves. Para questionar a falta de liberdade do uso do espaço, que para nós é super higienista, e a falta de liberdade de imprensa, uma vez que sou jornalista, assim como alguns fundadores do grupo. Não se falava mal do Aécio nessa época. Ele era “o intocável”. E colocamos um bloco de Carnaval criticando-o na porta do Palácio do Governo. Quer mais política cultural de enfrentamento do que isso? Hoje, é até banal falar dele. Mas, naquela época, ninguém ousava.

De 2009 para cá, o Carnaval de BH mudou muito e virou um dos maiores do país. Como percebe os novos desafios da folia? Não acho que o Carnaval de Belo Horizonte tenha mudado. Ele só deixou de ser feito para um grupinho de amigos. Saiu da “panela”. São poucos blocos ainda, se avaliarmos pela perspectiva do tempo imenso que ficamos sem nada. Por esse lado, estamos em débito. A região Centro-Sul realmente tem um impacto maior, mas faz falta ocupar e incentivar uma parcela grande da cidade, que são as periferias, vilas e favela. Então, ainda é pouco.

Acha possível manter o componente político ou o Carnaval se rendeu ao espetáculo e ao mercado? Acho que a discussão vai além dessas questões. Qual é o modelo de Carnaval de Belo Horizonte? Não existe. E isso que é legal, diverso: vários carnavais. E muitos ainda virão por aí. Fazer Carnaval é fazer política cultural de ocupação das ruas, das ideias e da quebra dos paradigmas. Existe Carnaval identitário, existe Carnaval comercial, existe Carnaval de guerrilha, de luta. Nenhum é melhor que o outro. E é bom que tenham diferenças. Ou as pessoas não sabem lidar com o diferente? Quer fazer um Carnaval só para os amigos? Cria um evento num clube fechado, então. A rua é a nossa praia e precisamos lidar com a diversidade.

Hoje, vemos que a prefeitura assumiu um discurso de apoio ao carnaval. A relação com o poder público mudou desde a Praia da Estação? Antes da Praia já havia uma luta para fazer manifestações culturais. Você tinha que ir a cada órgão público e comunicar sobre sua manifestação. Isso foi mudando pelo empenho que tivemos em criar um documento único, em que todos os órgãos tivessem a mesma informação sobre desfiles e cortejos. Na época, a Praia teve um papel importantíssimo em imprimir uma vontade coletiva de todos os blocos, em dar um caráter cada vez mais político. Era onde os blocos se juntavam para fazer um som e alinhar as pautas que acreditávamos ser resultado de uma nova forma de fazer política pública. A prefeitura não teve escolha: aceitava ou tinha que aguentar a gente “fritando” eles com nossos blocos, espalhados pela cidade. Ensinamos a ela o que queremos e que, se não tivermos, vamos assim mesmo. Ainda é assim, mas hoje dão força.

O Queixinho se diferencia de outros blocos por fazer um trabalho de escola de samba. O que caracteriza essa diferença? É a minha base de formação musical e o que eu amo é tocar em bateria de escola de samba. Gosto da potência, gosto de poder executar um instrumento da melhor forma, de tocar um som de qualidade, de chegar na afinação perfeita, de pesquisar novos ritmos, de ter autonomia musical. E, principalmente, de ter o prazer de apresentar com perfeição o que estudamos durante o ano inteiro. Se no Rio a disputa fica entre as baterias, aqui no Queixinho o desafio está dentro de você. Como lidar com seus desafios, com sua autoestima, com suas dificuldades e, no fim, você vê que não está sozinho. É muito gratificante. Sou tradicionalista dentro da linha das escolas de samba. Não estou aqui para inventar a roda. Antes de mim, vários mestres já faziam o que eu faço. Vou ao Rio toda semana pegar referência nas escolas de samba, ver de perto, sentir o cheiro do suor dos ritmistas e a adrenalina para aprender, aperfeiçoar e trazer para BH. Não formo batuqueiros, formo ritmistas. Não quer dizer que é melhor ou pior. Mas o estilo de escola de samba exige que as pessoas sejam ritmistas.

O Queixinho sempre buscou abordar temas atuais, como a luta contra a homofobia, e evoluir seu cortejo, por exemplo levando-o para áreas descentralizadas. O que baliza essas escolhas? O Queixinho sempre foi um grupo extremamente heterogêneo que conviveu de forma harmoniosa com todas as diferenças. A questão da descentralização tem relação com o fator político que sempre tivemos: ocupar os espaços públicos. Se num primeiro momento, em 2009, a meta era ficar em Belo Horizonte, os passos seguintes foram ocupar as ruas. Depois, ocupar os bairros, parques e praças e, por fim, ocupar a cidade como um todo. O Carnaval de rua ficava e ainda é, em sua maioria, dentro da região Centro-Sul. Daí tive a ideia do tema do Carnaval de 2012 ser a descentralização. É importante frisar que o principal, para nós, é a performance da bateria. Trabalhamos, estudamos, fazemos oficina e ensaios para presentear a cidade com o nosso melhor. E ter espaço para isso é fundamental. 

O Queixinho também sempre fez coro às manifestações populares em defesa dos direitos humanos e dos avanços sociais. É papel dos blocos se posicionar politicamente? Com certeza. É importantíssima a participação dos blocos de rua nas manifestações populares. O posicionamento político faz parte da história do ressurgimento do Carnaval de rua de BH. Defendemos a ocupação democrática dos espaços públicos e o Carnaval é uma ótima oportunidade de levarmos pautas da cidade junto aos foliões e, assim, proporcionarmos uma troca com a população, além de evidenciarmos nossas lutas.

Nesse sentido, como você percebe a importância do Carnaval de 2019, o primeiro no governo de Jair Bolsonaro? Acredito que o Carnaval de rua, além de ter a função de levar festa e alegria, também é uma forma de resistência. Mais do que nunca, devemos estar juntos e levar nossa bandeira, que é pela valorização da cultura, pela garantia de direitos, pelo respeito à diversidade. Nunca foi tão precioso e necessário levantar a bandeira do amor, do respeito e da igualdade. Estaremos firmes e fortes no Carnaval de 2019.

Depois de muitos anos, vocês conseguiram abrir uma sede, o Barracão do Queixinho. Qual a ideia do espaço? O que tem funcionado por lá e como estão os planos futuros? O Barracão do Samba Queixinho realiza oficinas para capacitar pessoas, músicos ou não, por meio de atividades que envolvem a música. É um ambiente propício para a formação de multiplicadores que compreendam a história das manifestações culturais relacionadas ao Carnaval de BH e de outras iniciativas culturais da cidade.

Neste ano, vocês homenagearam o Giramundo e, em 2019, será a vez do Grupo Corpo. Como o Queixinho levará a dança contemporânea para a folia? Sempre foi um sonho homenagear o Grupo Corpo, companhia de dança que é reverenciada não só no Brasil, mas internacionalmente. Mais de quarenta anos de história que selam a arte brasileira em conexão com a do mundo, através da expressão corporal. Uma verdadeira entidade cultural. Prestar esta homenagem no ano em que completaremos uma década de existência é uma grande honra. A intenção é trazer uma nova plataforma de interação com as ruas, a música e a dança. Sobre o cortejo, ainda estamos formatando os detalhes e, obviamente, será surpresa. Queremos presentear BH com um “desfile-espetáculo” que vai levar muito amor e arte para as ruas.