Um casamento inesperado de dois ritmos que obtiveram crescimento exponencial a partir dos anos 90 e não têm preconceito para se reinventarem. A primeira experiência do funknejo a alcançar visibilidade foi com “Eu quero Tchu, Eu quero Tcha”, de João Lucas e Marcelo, em 2012. Hoje, a dobradinha domina as paradas com parcerias de DJs ou MCs com duplas sertanejas, como MC Kevinho, Nego do Borel, Lucas Lucco, Maiara e Maraísa, Wesley Safadão, Marília Mendonça e Dennis DJ. 
 
Em 2011, os dois estilos quase se esbarraram. “Assim Você me Mata” era originalmente um funk. Transformado em forró pé de serra, conquistou a Bahia e caiu nas graças de Michel Teló, que tratou de adaptar a canção para a versão sertaneja que estourou pelo mundo. 
 
“Foi a primeira música a alcançar as paradas internacionais desde ‘A Garota de Ipanema’, o que não é pouca coisa”, conta Gustavo Alonso, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro “Cowboys do Asfalto: música sertaneja e modernização brasileira”, que traça o perfil histórico do estilo da década de 1950 até 2015.
 
Duas escolas que saem de ambientes periféricos: o urbano, no sentido geográfico dos morros de onde veio o funk brasileiro, e o rural, já que o sertanejo é visto como “traidor” das raízes caipiras da música do campo. 
 
Gustavo Alonso contextualiza a constante reinven-ção do sertanejo com a apropriação de outros estilos, desde o fim da década de 1960, quando uma primeira transformação de arranjo vem da dupla Leo Canhoto e Robertinho. Os artistas foram pioneiros em incorporar ao ritmo baixo, bateria, teclados e guitarra. O sertanejo universitário trouxe de volta o acordeão e adotou o violão de cordas de aço por volta de 2005. 
 
“Foi emblemático ver a dupla Jorge e Mateus, em 2009, tocar em um trio elétrico em Goiânia um riff do AC/DC para em seguida emendar em uma música de Christian e Ralph, ou seja, uma mistura bem característica da nossa cultura”, diz Gustavo Alonso, para quem a ousadia acompanha a identidade cultural brasileira. 
 
FUNK E NEJO
Recentemente o sufixo “nejo” foi atrelado a expressões como popnejo, arrochanejo e feminejo – o último permanece no mesmo estilo, mas altera o teor das canções a partir da maior participação de mulheres compositoras e da mudança do ponto de vista das canções amorosas.
 
As letras também mudam para se adequar aos tempos. O sertanejo abandonou o sofrimento para enaltecer, a partir da “pegada universitária”, realizações pessoais e celebrações, o que se adequa à linguagem do funk, que também construiu a própria história incorporando outros ritmos. Desde os que vêm das mesmas origens sociais, como o hip-hop e o Miami bass, até a música clássica de Bach, incorporada na música “Bum Bum Tam Tam”, de MC Fioti, que no ano passado atingiu 1 bilhão de visualizações no Youtube. 
 
É o que pontua o pesquisador do funk carioca e professor da Escola de Música da UFMG, Carlos Palombini. “Seja o pop, o rock, o brega, funk não tem hostilidade a nenhum gênero, e nessa década, com a própria evolução, o ritmo passa a se abrir para essas misturas com a adaptação do tamborzão para o beatbox, que ocupa menos tessitura e permite a integração de outros ritmos”, diz.