“Diga-me para quem consertas e direi quem és”. Este foi um dos aprendizados do saxofonista e luthier Wagner Lopes. “Lut o que? Muitos me perguntam”, confessa o músico. O estranhamento em relação ao nome, de certa forma, enquadra a profissão na categoria de ofícios curiosos.
 
A particularidade da luthieria está no fato de ser um trabalho que requer minúcia, paciência e dedicação extrema, para fazer nascer um instrumento musical ou mesmo restaurá-lo.
 
Para Lopes, que iniciou no ofício consertando o próprio instrumento e, atualmente, soma 12 anos na profissão, o luthier trabalha com sonhos. “Quando o cliente chega no ateliê não pensa no instrumento em si, mas em um sonho”, avalia o saxofonista à frente da Casa Tenor.
 
Com ateliê em Nova Lima, ele se dedica a restauração e customização de todos os tipos de instrumentos de sopro, exceto a gaita. Entre seus clientes estão o saxofonista Chico Amaral, integrantes da banda Skank e professores da faculdade de música da UFMG. Nesses mais de dez anos de estrada, Lopes coleciona boas histórias, como a de uma musicista japonesa que deixou o instrumento cair momentos antes da apresentação. “Ela tinha pouco tempo para entrar no palco e eu consegui recuperar o instrumento”, rememora satisfeito.
 
Os fãs da banda Pato Fu, ou quem acompanha a cena musical mineira, já devem ter visto os instrumentos/brinquedos que os músicos utilizaram no álbum “Música de Brinquedo”. Aqueles mimos instrumentai nasceram das mãos do luthier Sânzio Brandão.
 
O guitarrista da banda Cálix tomou gosto pelo ofício aos 15 anos. “Tenho um problema mecânico no braço esquerdo. Não conseguia aprender a tocar como destro. Adaptar o instrumento era caro e decidi fazer sozinho”, lembra o moço a forma como descobriu a luthieria.
 
Anos mais tarde e depois de muitas pesquisas, resolveu fabricar a própria guitarra, com a qual se apresentava nos shows. “Ela chamou atenção e os músicos queriam encomendar. Mas não pensava nisso profissionalmente”, conta ele. Em 2012, Sânzio se rendeu. Juntamente com o engenheiro Cristiano Dalvi, abriram a Kian Guitars. “Nossa proposta é aceitar desafios”, afirma. Exemplo foi a encomenda de um instrumento de dois braços, sendo uma guitarra e um baixo. “Gosto de criar alternativas e soluções. Fiz esse instrumento de forma que o músico consiga separá-lo. Assim tem três opções para utilizá-lo”.
 
Para Sânzio o mercado para luthier é satisfatório. “Não posso reclamar porque cada vez mais os músicos estão entendendo as vantagens de um instrumento personalizado”, garante ele. “Tem pessoas que desejam uma Fender (fabricante norte-americana de guitarras) igual a do músico Jack Black. Costumo dizer que ele só usa essa porque não conhece a Kian”, brinca.
 
‘Brasil, esquentai vossos pandeiros’
 
O mundo da luthieria é amplo. O ex-consultor técnico em automobilística José Augusto, ou simplesmente “JA Brasil”, por exemplo, é um “mago dos pandeiros”. Há três anos, JA que também é baterista, se dedica ao ofício que iniciou por causa de sua esposa. “Ela comprou um pandeiro e decidi mexer para melhorar o som. Quando percebi já havia trocado tudo”, se diverte.
 
Lá se vão mais de 200 pandeiros confeccionados. Desse número, 23 foram para o Club du Choro de Paris. Outros nomes de peso já meteram a mão em um pandeiro JA Brasil, como a cantora Ana Carolina. Quem deseja comprar um instrumento feito pelas mãos de um luthier precisa considerar que irá investir em um produto diferenciado, feito sob medida, o que requer um preparo do bolso.
 
A diferença no preço é considerável dependendo das especificidades do produto. “Por ser mais caro e com matérias-primas melhores, como a madeira maciça, nosso comprador é geralmente um músico profissional. Iniciantes preferem comprar nas lojas, onde o preço é menor”, compara JA.
 
Clássicos
 
Os clássicos fabricantes de instrumentos em grande escala sofrem com a escassez de matéria-prima de qualidade, de acordo com o luthier Henrique Utsch. “Para quem trabalha artesanalmente é mais fácil, pois encontramos bons materiais. O que interfere diretamente na qualidade do som”.
 
Há 12 anos no mercado, Utsch comenta que o encantamento da profissão está na satisfação do cliente. “Entregar o material e ver o brilho no olho do músico é uma sensação ótima, pois somos movidos por música”, comenta ele.
 
Ao longo da carreira já teve pedidos inusitados como “uma guitarra em formato de Coca-cola”. Excentricidades à parte, o moço tem seus instrumentos rodando no circuito do rock de Belo Horizonte e ainda oferece cursos de luthieria em seu ateliê.