A diretora Yara de Novaes é categórica: não há grupo melhor para ilustrar os temas do espetáculo “Como os Ciganos Fazem as Malas” do que o Galpão. Para ela, que já havia comandado a trupe na peça “Tio Vânia”, há exatamente dez anos, as metáforas sobre ciganos refletem a essência “nômade” da companhia mineira.

“O Galpão é realmente um grupo que vive mudando de lugar. Ele está disposto a esta mudança;  muda porque quer mudar. Quando  muda de lugar, ele aumenta e não deixa de ser quem é. Os ciganos são assim. Não deixam a cultura deles porque não têm um território fixo”, observa Yara, que partiu de texto inédito de Newton Moreno.

O espetáculo, que estreia neste final de semana num aplicativo de mensagens de texto (o Telegram), tem como protagonista um escritor, vivido por Paulo André, que inicia uma viagem e divide com um amigo (o espectador) suas impressões sobre pessoas e situações. “A gente acaba refletindo sobre o papel do artista, do escritor, no mundo de hoje”, assinala.

Peça será apresentada aos sábados e domingos, por duas semanas. De 11 às 19h, acontece a versão estendida. De 20h às 21h30, a compacta. Ingressos podem ser adquiridos de forma gratuita no site da Sympla

Para a diretora, o artista é um nômade na medida em que não para nunca, sem buscar chegar a um destino final. “Ele está sempre em travessia”, pontua. Neste sentido, as plataformas digitais caíram como uma luva, já que são usadas exatamente para levar ao outro os sentimentos experimentados durante um determinado percurso, como se fosse  um diário de viagem.

Foi aí que entrou o Telegram, que, na avaliação dos produtores, possui uma interface mais bonita, na forma de um álbum, além de algumas ferramentas que poderiam ser utilizadas de forma mais imersiva (como adicionar uma música de fundo). “O escritor é confrontado com coisas reais que se expandem para que possam ser imaginadas de outras formas”.

O personagem de Paulo André se apropria de vários meios para estabelecer esta comunicação com o espectador, enviando desde mensagens simples em vídeo e áudio a gifs, emojis e músicas. “Tudo isso cabe numa conversa. Se você observar aquelas saídas de uma relação verdadeira, vai observar que por ali passaram milhares de coisas interessantes”.

O espectador poderá escolher entre a versão compacta – apresentação contínua com duração de 1h30 – ou estendida, em que as mensagens serão enviadas ao longo do dia, durante oito horas, com o objetivo de reproduzir uma conversa real. “É preciso embarcar nesta onda, como se tivesse um amigo realmente viajando e que lhe envia uma mensagem no momento em que faz supermercado”, explica Yara.

Fã de Moreno (“Gosto do jeito que ele escreve e vê o mundo, realizando dramaturgia como se fosse poesia”, elogia), a diretora lembra que o fato de ter procurado André para o personagem abriu outra porta. Na mesma época, o Galpão, grupo do ator, estava sondando Moreno para participar do projeto “Dramaturgias”. “Foi um reencontro maravilhoso, porque trabalhar com eles é um jeito de continuar aprendendo”.

Grupo espera poder viajar pelo Brasil no aniversário de 40 anos

O Galpão completa 40 anos de estrada em 2022. A forma como pretendem comemorar a data é se apresentando num palco, diante dos espectadores, algo que lhe foi privado desde o início da pandemia. “Gostaríamos de voltar a encontrar com o público. Estamos projetando a possibilidade de criar um espetáculo novo e fazer uma série de excursões pelo Brasil”, revela Eduardo Moreira.

“Comemoríamos assim dentro desta característica, que é da nossa natureza essencial, que estar com o público”, registra o integrante. Enquanto isso não é possível, o meio digital se mantém como alternativa. “Como os Ciganos Fazem as Malas” está inserido num  projeto que reúne cinco espetáculos com assinaturas e feições bem diferentes.

“Chamamos alguns dramaturgos para desenvolverem projetos virtuais, cada um apresentando características diferentes”, destaca. A segunda apresentação, com texto e direção de Pedro Brício, por exemplo, terá a reunião de cenas filmadas com inserções ao vivo. Já a terceira resultará no curta-metragem “A Primeira Perda da Minha Vida”, dirigido por Inês Peixoto e texto de Moreira.

Fechando o primeiro ciclo, um texto de Paulo André com direção de Marcio Abreu, e outro, com  estreia prevista para dezembro, que será escrito por Silvia Gomez. Este último está ainda mais no campo da ideia, sem diretor escolhido – provavelmente o nome será alguém do próprio grupo.

Para Moreira, outro ponto comum entre os projetos é o fato de refletirem o momento atual da pandemia, desde a forma ao conteúdo. “Vamos desde imprimir um conteúdo artístico  a um aplicativo como Telegram  à abordagem dos sonhos que estamos tendo neste período, tema da segunda apresentação”.

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