Quantas vezes na escola não ouvimos a ‘professorinha’ qualificar a água como um líquido incolor, insípido e inodoro? A realidade é que a substância que possui as moléculas formadas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio é mais complexa do que parece ser. As águas minerais, por exemplo, podem ser classificadas em 12 grupos e as fontes de onde são extraídas em mais oito tipos, segundo o decreto 7.841 de 8 de agosto de 1945, que institui o código desse tipo de água.

Cada propriedade da substância pode ser percebida devido a sua proveniência. Aromas e sabores são perceptíveis, assim como o vinho, o café, a cerveja, ou azeite e diversos outros produtos da culinária, devido ao terroir, ou seja, pelo contato do líquido com substâncias minerais presentes em uma determinada área limitada. Outra alternativa que confere propriedades distintas à água é o percurso geográfico que ela faz e por onde passa para ser extraída. Em alguns casos, até mesmo a adição de novos compostos químicos ou o material utilizado para engarrafar e conservar a bebida.

A sutileza dessa bebida é o que torna difícil a percepção dessas minuciosas diferenças, no entanto, quando dispostas uma ao lado da outra para uma proposta de degustação, essa ideia se torna algo bastante interessante, e quando realizado às cegas, ainda pode ser divertido.

Realizamos a “brincadeira” com três sommeliers: de cerveja, Heitor Silva, do blog Cervejas & Sabores; de vinho, Ana Luiza Borges, da WSET e de café, Júlia Souza, da Academia do Café. Foram dez rótulos diferentes de água: quatro sem gás (Acqua Panna, Igarapé, Ingá e Voss) e seis gasosas (Cambuquira, Igarapé, Nestlè, Pedras Salgadas, San Pelegrino e São Lourenço). Todas foram consideradas límpidas, mas a avaliação de aroma, sabor, equilíbrio e estrutura variaram bastante. A norueguesa Voss foi considerada a melhor entre todas as águas avaliadas. Entre as gasosas, uma água gaseificada artificialmente, a Pureza Vital, da Nestlé, foi eleita a melhor. A portuguesa Pedras Salgadas não foi bem aceita no paladar dos examinadores, que a classificaram como a pior água que já beberam, nenhum deles conseguiu fazer a avaliação dela até o final.

Especialistas recomendam observar a composição nos rótulos

Os médicos recomendam o consumo de, no mínimo, dois litros de água potável e de boa qualidade por dia, mas, além disso, a nutricionista e professora do curso de Gastronomia do Centro Universitário Una e do curso de nutrição da Universidade Estácio de Sá, Mariana Lana, orienta também que devemos ficar atendo aos rótulos de qualquer alimento, inclusive o da água mineral. Seguindo a dica da profissional, avaliamos as informações nutricionais das dez garrafas da bebida que utilizamos nesta degustação e constatamos que a quantidade de sódio pode variar de 0,219 até 599 miligramas por litro (mg/L). A portuguesa Pedras Salgadas, concentra a maior quantidade de sódio e a mineira Ingá, a menor.

Apesar da grande diferença, todos os rótulos estão dentro do limite permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que não permite exceder 600 mg/L. “É recomendado um consumo diário de, no máximo, 2 gramas de sódio por dia, então, vale a pena se atentar para as informações no rótulo do produto”, lembrou a profissional.

Curiosidades

Diz a lenda que a água mineral foi descoberta pelos gregos, mas que eles a usavam para tomar banho. Os romanos teriam sido os primeiros a consumi-la e a descobrir sua propriedade medicamentosa.

A água Voss é considerada a mais pura do mundo. Ela é captada em um aquífero na cidade de Vatnestrom, ao sul da Noruega. A garrafa da bebida, que lembra um vidro de perfume, foi desenvolvida por Neil Kraft, ex-diretor de criação da Calvin Klein.

A San Pellegrino é uma água carbonada, rica em minerais e engarrafada há 600 anos em Milão, na Itália. Em sua composição, encontramos o cálcio, o magnésio e o bicarbonato.

A água de degelo, como a Evian, dos Alpes Suíços, pode ser também filtrada e engarrafada para consumo.

A Bling h2o, americana do Tennessee, é uma água que traz na garrafa cristais swarovski. A versão de 750 ml custa em torno de U$ 50.

Água não é ‘tudo igual’

 

Confira a avaliação dos rótulos selecionados

Voss - Noruega
Muito límpida, pura, com aroma totalmente neutro. Bastante refrescante. Acidez baixa, quase inexistente. Chegou a ser considerada uma água que não tem gosto algum, mas um pouco adstringente. Muito equilibrada. Considerada a melhor água sem gás pelos degustadores.

Acqua Panna - Itália
A fonte de Acqua Panna está localizada na cidade de Scarperia, nas colinas da Toscana, na Itália. Límpida, aroma neutro, frescor médio, acidez baixa, com leve sabor químico ao fundo e um pouco residual na boca, sendo considerada um pouco pesada e sem muito equilíbrio.

Igarapé - MG
Límpida, aroma neutro, frescor médio a alto, acidez média, com sabor neutro e um leve toque salgado no final.

Ingá - MG
Límpida, aroma neutro, bastante refrescante, acidez média para baixa. Sabor levemente mineral e um pouco salgado. Não limpa o paladar e deixa um gosto final um pouco desagradável na boca. Corpo médio para baixo, assim como o equilíbrio.

COM GÁS


Nestlé Pureza Vital - SP
Eleita a melhor água entre as gasosas. Límpida, efervescência bastante natural, apesar de gaseificada artificialmente. O gás é suave, sendo percebidas agulhadas na boca. Aroma neutro com leve percepção de notas cítricas que lembra limão siciliano. Bastante suave e frescor baixo, assim como a acidez. Sabor salgado, com percepção do bicarbonato. Bastante complexa e estruturada. Para ser equilibrada falta apenas melhorar o frescor ser mais leve.

San Pellegrino - Itália
Límpida, com borbulhas suaves, porém marcantes. Deixa uma presença leve na boca e é um pouco adstringente. Aroma neutro. Frescor médio para alto e acidez média para baixa. Sabor um pouco adocicado com mineral acentuado. O gás natural é notável. Foi considerada uma ótima opção de água gasosa. Bastante encorpada e bem equilibrada.

São Lourenço - MG
Límpida, bolhas grosseiras no copo, mas suave na boca, porém, marcante. Aroma neutro e bem refrescante; médio a alto frescor. Acidez média com estímulo da salivação. Sabor bem mineral e levemente adocicado. Encorpada, de complexidade média. Um pouco pesada, ainda assim com equilíbrio positivo.

Cambuquira - MG
Límpida e naturalmente gasosa. Efervescência leve, a ponto da bolha não se mostrar marcante na boca, apenas no copo. Aroma agradável, podendo ser notado o cheiro de pedra molhada. Bastante refrescante, com acidez média; estimula a salivação. Sabor agradável de mineral e levemente salgada. Bom equilíbrio entre a acidez e a salinidade.

Igarapé - MG
Límpida, efervescência alta, com bolhas grosseiras, claramente artificiais. Aroma neutro e tanto frescor como acidez médios para baixos. Sabor adstringente e salgado, com leves notas cítricas, chegando a ser desagradável na boca. Corpo médio para denso. Sem equilíbrio por conta do excesso de gás.

Pedras Salgadas - Portugal
Límpida, com efervescência baixa e fina. Aroma nada neutro, com forte presença de química e notas frutadas. Frescor médio para baixo. Na boca um gosto de bicarbonato, com estímulo doce e de frutas. Forte sabor químico que se assemelha a um sabão em pó. A avaliação nem chegou a ser concluída, pois os sommeliers recusaram a continuar a degustação.